VAIANDO O SOL

Mais trechos do livro de Tarcisio Matos intitulado VAIANDO O SOL , O MELHOR DO HUMOR E DA MOLECAGEM CEARENSE

 

Em Sobral, o Anselmo ouvia conversa entre populares acerca da guerra entre americanos e russos e de uma coisa ficou certo: o presidente americano à época Jonh Kennedy, era mesmo muito macho. Aí foi a sopa no mel: a mulher grávida ia ter um filho homem e o meninão seria batizado com o nome de Kennedy.

Através de um amigo, Anselmo fez uma carta e remeteu-a à Embaixada Americana. Em vinte dias a resposta chegava: o presidente americano topava ser o padrinho da criança, mas lamentava não poder estar presente à festa.

O menino era exibido com orgulho por Anselmo:

- Este é o meu John!

Mas Lee Oswald achou de matar Kennedy naquele 22 de novembro de 1963. Quando soube do assassinato, Anselmo correu pra casa e avisou a mulher, ainda curtindo o resguardo. Ela empurrou o pau a chorar e lamentar, num luto de fazer dó.

- Eu dou por vista a situação da cumade Jacqueline! Que será dela sem eu por perto pra fazer um chazinho de capim-santo, receber o povo que vão pro velório…

 

Margarida executava no piano o autor predileto: Villa-Lobos. Tocava o “Trem Caipira” e, vez ou outra, levantava a perna esquerda liberando sonoro pum. Murmurava tranqüila:

-Que alívio!…

O namorado Zé Galdino chegara há alguns minutos e, sem dar um pio, para não atrapalhar a virtuose da moça, posta-se atrás, caladinho.

E mais uma vez Margarida deixa um peidinho maroto escapulir.

-Que alívio!…

Até que, fazendo 180º no banquinho do velho Essenfelder, joga a vista em Zé Galdino, para seu espanto:

- Amor!!! Faz tempo que cê taí?

- Desde o primeiro alívio, Margá!

Publicado em:  on 22 03amMon, 31 Mar 2008 10:42:37 +0000ç2008 2008 at 10:42 am Deixe um comentário

MÃE PRETA

“Na  Antologia, de Edgar Resende, intitulada – “O Brasil que os poetas cantam”, consta que  Augusto Linhares nasceu em Baturité, em 24 de novembro de 1879, se matriculando, em 1897, na Faculdade de Medicina da Bahia, de onde, no ano seguinte, passou para a do Rio de Janeiro, doutorando-se, em 1902. Fez estudos de Medicina Tropical, especializando-se em Manguinhos, com Osvaldo Cruz, tendo sido, em Liverpool, aluno de Ronald Ross, especializando-se em Larinotologia, havendo trabalhado, na “Charité”, de Berlim, com o Prof. Killiam. Tendo estado, no exercício dessa especialidade, em Bordeus, França e Estados Unidos. Aqui no Brasil, desempenhou as comissões de Médico do Saneamento de Manaus, Inspetor de Saúde dos Portos do Amazonas e a de Inspetor Escolar da Prefeitura do Distrito Federal. É prosador e poeta. Entre outros trabalhos escreveu:                                                

                                                                MÃE PRETA

Quando Dodora ao céu chegar - é minha crença,

E ao Chaveiro disser: – Dá licença meu Santo?

São Pedro, vendo-a, lhe dirá, com certo espanto,

- Você, Dodora!, não precisa de licença! …

                             E a porta lhe abrirá, paternalmente. E ela,

                            Para de todo ser feliz  numa tal hora,

                            Seu cachimbinho acende. Acende-o numa estrêla;

                            Mas São Pedro lhe diz: – Não, aqui não, Dodora!…” 

Irene no céu de autoria de Manoel Bandeira que veio ao mundo bem depois, tem muito dessa poesia

Irene no céu

Irene preta

Irene boa

Irene sempre de bom humor.


 

Imagino Irene entrando no céu:

— Licença, meu branco!

E São Pedro bonachão:

— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

 

Publicado em:  on 22 03amSun, 30 Mar 2008 11:24:53 +0000ç2008 2008 at 11:24 am Deixe um comentário

A FELICIDADE CHEGOU

Finalmente a felicidade bateu-me à porta.

Chegou sem alvoroço

sentou-se no sofá,

olhou-me fixamente

penetrou em minha alma

alojou-se nos meus olhos

para que eu pudesse transmitir a todos que ela existe.

O que eu fiz, eu sei

esmaguei o passado sombrio e passei a viver o presente ensolarado.

Não há mais mágoas nem rastro de pólvora

apenas vivo o momento atual plenamente.

Publicado em:  on 22 03pmSat, 29 Mar 2008 13:14:47 +0000ç2008 2008 at 1:14 pm Deixe um comentário

VAIANDO O SOL , O MELHOR DO HUMOR E DA MOLECAGEM CEARENSE

Alguns trechos do livro de Tarcisio Matos intitulado VAIANDO O SOL , O MELHOR DO HUMOR E DA MOLECAGEM CEARENSE

PG 34

“Besta é o coco, que dá o olho pra furar. E de besta, no recinto, só o Mane Lombo Preto, que cospe no chão e pede passagem.

A velha mãe dele estava vendendo pamonha na calçada do Banco do Brasil quando chegou o cumpade Eleazar, pedindo dois reais emprestado pra pegar um misto em busca de casa, um sítio distante dali. A senhora, miserável que só padre velho, respondeu:

-Ó cumpade! Que pena eu não poder lhe emprestar esses dois reais.

-Mas por que cumade?

- A questão é que eu fiz um acordo com o gerente aí do Banco: nem eu empresto dinheiro nem ele vende pamonha.” 

Ainda do citado livro pg 38 Quintino Cunha e suas Anedotas

“”Cearense até debaixo d’água”, Quintino era considerado um dos maiores talentos verbais da terra. Advogado e poeta, a sátira, o sarcasmo e a irreverência pontuaram-lhe a vida – até na morte ecoam defesas suas bem-humoradas. O gosto de fazer uma frase de espírito sacrificou-lhe amizades dedicadas.”.

“Quintino Cunha conta que foi passar férias na casa de um amigo, mas lá ele não estava. Apenas foi recebido por três tias do rapaz. Evidente que após viagem de duas léguas, a fome falou alto. Só que não havia mais almoço àquela hora. Que fez o poeta? Dormiu, para despistar a fome. Dia seguinte, porém, nada de novo para comer.

Às quatro da tarde, não suportando tamanho vazio no estômago, decidiu partir, deixando uma quadrinha para que o amigo lesse assim que chegasse:

“Adeus casinha de fome

Nunca mais me verás tu

Criei ferrugem nos dentes

E teia de aranha no c-”

Quintino teve pela frente, no Fórum de Fortaleza, um advogado de apregoado saber jurídico, que lá pras tantas perde a paciência:

- Dr. Quintino, estou citando a Lei. Estou montado no Código Civil.

O poeta teve que intervir de bate-pronto, desconcertando o oponente:

-Lamento muito a sorte do meu prezado colega, pois está montado num animal que não conhece.”

Publicado em:  on at 9:24 am Deixe um comentário

AFILOTAR

JUCA FONTENELLE, nasceu José Victor Fontenelle Filho, em 23 de fevereiro de 1920 em Viçosa do Ceará, autor do livro VIÇOSALIANAS contando as estorinhas de Viçosa, publicado em 2002.

AFILOTAR é uma delas na página 21.

                                                                AFILOTAR           

                  É deveras curioso como existem certas regras tácitas, mas religiosa e instintivamente seguidas por todo o interior do município de Viçosa. O problema é que nos acostumamos a elas e não  nos detemos como observador e é sabido que o costume vira lei.           

                Uma delas é a abreviação que se faz dos nomes próprios de pessoas, em família e daí para os vizinhos, até que se torna constante seu uso.           

                 José vira Zé aparentemente no país todo; Manuel, dá diversos como Neo, Mané. Quase sempre o primogênito não acerta com o nome correto de irmão mais novo e engendra outra coisa. Como o “bichinho” é todo graça, ficam tratando o outro daquele modo e… fica permanentemente. Tem até quem haja transformado Maria em… “Mica”!           

                 Assim é que Filomena se muda às vezes em Mena e outras em “Filó”, como no caso que vamos tratar. Entre muitas outras meninas, havia no sítio Baixa-Grande uma batisada por Filomena, a que domiciliarmente se começou a chamar de Filó.           

                Como alguns namoros e um quase noivado não deram em casamento, Filó se foi acostumando ao papel de “Titia” orientando as mais novas, como Mariana, cujo nome era uma homenagem dos pais às avós Ana e Maria.           

                Mariana era mais uma.           

                Única filha do casal que tinha quatro varões e por isso, tornou-se no “não-me-toques” dos pais. João era naturalmente mais ligado à filha que a mãe, Josefa, conhecida por Zefinha, em que pese ser um tipo alto e forte. João tinha um cuidado especial com a filha, já pré-adolescente e dotada de um porte físico que chamava a atenção. O pai fazia tudo para proteger a filha, chegando às vezes ao cúmulo de a levar ao roçado com a desculpa de que iria ajudá-lo, quando todos sabiam que o objetivo era manter a garota sob seu olhar vigilante.           

                A vizinha Filó era guia e protetora das mocinhas, especialmente para irem a festas aonde os pais não podiam ir por qualquer motivo. Filó era o elemento de confiança dos pais nesses casos, especialmente.           

                Artênio era uma das pessoas mais conhecidas porque tocava sanfona e mantinha uma orquestra, famosa na região, tocando até em Sobral…           

                Um dia começa a circular notícia de que Artênio estava promovendo uma festa no Gavião, sítio vizinho, de terra muito fértil e moças muito bonitas. A cabecinha de Mariana logo começou a esquentar, lembrando-se de que não podia perder esta, apesar de o pai estar impedido de a acompanhar por motivos de saúde e não confiar nos filhos para conduzirem e guardarem sua “rainha”, como na intimidade chamava a filha.           

                A solução foi “cantar” Filó que prestimosamente veio convidar Mariana e se por à disposição para a acompanhar e guardá-la. Com a relutância esperada, João concordou, com a recomendação especial de que Mariana somente dançaria se a Filó estivesse presente no salão.           

                No dia aprazado, Mariana se junta ao número já crescido de adolescentes acompanhadas de Filó e colocadas sob sua guarda. Iniciada a festa, Mariana dança o primeiro “toque” e o segundo. Filó atende a convite de um amigo e sai para o terreiro da festa, a fim de tomar um quinado de Sobral e por ali fica, bisbilhotando a vida dos outros e molhando a garganta, vez por outra.           

                Muito a contragosto, Mariana parou de dançar, por mais que os rapazes insistissem. A cada um ela dava a explicação compreensível, dizendo que só dançaria se a Filó estivesse presente.           

                Apenas no linguajar simplório da zona rural, ela abreviava as coisas  e saía “só danço afilotando” . Mesmo sem entender, os rapazes aceitavam a desculpa e procuravam outra.            

                Lá pelas tantas, um rapagão com quem Mariana trocava olhares não tão inocentes, já estava com a cabeça meio agoniada pelas doses de bebida e não se conteve.

                Aproxima-se, convida Mariana para dançar e ouve mais uma vez a justificativa: “Só danço, a Filó “tando”. Enlaça Mariana pela cintura, enquanto fala: “Que besteira. Eu também sei afilotar”.           

                E sai valsando com Mariana, mesmo sem a Filó tá!.

Publicado em:  on 22 03amFri, 28 Mar 2008 09:29:12 +0000ç2008 2008 at 9:29 am Deixe um comentário

HOMENAGEM A CAMPOS DE CARVALHO

Walter Campos de Carvalho nasceu em 1º de novembro de 1916, em Uberaba, Minas Gerais. Formado em Direito, em 1938, em São Paulo.

Entre outros livros publicou:

A Lua vem da Ásia

Vaca de Nariz Sutil

A Chuva Imóvel

O Púcaro Búlgaro

Os três primeiros parágrafos do Capítulo Primeiro, do livro A LUA VEM DA ÁSIA diz:

“Ao 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.”

            “Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.”

            “A primeira mulher que possuí foi sob a ponte do Sena, em pleno coração do meu Paris imaginário; e ainda lembro de que ela me sorria com uns dentes que refletiam as estrelas e as lâmpadas do cais adormecido, e dizia-me coisas numa língua que eu não conhecia.” ………..

Ao final do capítulo 99, conclui com os seguintes pensamentos:

“Os homens, as pulgas e as ratazanas se assemelham nisto: que hoje estão vivos mas amanhã estarão mortos, irremediavelmente mortos, e para sempre.”

“O grande pátio onde de manhã tomamos sol nem sempre tem sol, o que demonstra a incúria do governo e a irresponsabilidade daqueles a quem pagamos para que nos dêem sol, já que não nos podem dar a liberdade.”

“Se Napoleão Bonaparte não houvesse existido, que seria de seus filhos e netos e de todos os seus sósias e falsos sósias, que se blasonam desses títulos como da coisa mais importante deste mundo?”

“À noite a lua vem da Ásia, mas pode não vir, o que demonstra que nem tudo neste mundo é perfeito.”

“Quando sair daqui, vou matar a pedradas o médico que matou meu irmão no hospital e não foi punido até hoje. Pena que ele não possa ouvir os próprios gritos, pois que é surdo.”

“As flores têm o perfume que a terra lhes dá sem ser perfumada. Assim, também nós devemos dar a nossos atos aquilo que não trazemos em nós mas de que somos realmente capazes, e que não morrerá com a nossa morte.”

“Como o criado da noite veio apagar a luz do meu quarto, este fica sendo o último aforismo que escrevo, fazendo-o no escuro e sob protesto.”

  

Seqüência dos capítulos desse livro:

Capítulo Primeiro

Capítulo 18º

Capítulo Doze

(Sem Capítulo)

Capítulo Sem Sexo

Capítulo 99

Capítulo Vinte

Capítulo I (Novamente)

.Capítulo

Capítulo CLXXXIV

…………………………..

Publicado em:  on 22 03pmThu, 27 Mar 2008 19:20:13 +0000ç2008 2008 at 7:20 pm Deixe um comentário

A vida

Hoje estive frente a frente com a vida

Achei-a enrouquecida

Talvez pálida

Foi tudo tão rápido

Não houve tempo de entrar em detalhes

Mas descobri que ela existe…

Publicado em:  on 22 03amWed, 26 Mar 2008 11:23:04 +0000ç2008 2008 at 11:23 am Deixe um comentário

PERTURBAÇÃO

Sereno caminho pela madrugada

Percorro sombrias alamedas

vasculho minha intimidade

Encontro interrogações

Não há soluções

adormeço quase ao amanhecer cansado e sem respostas.

Publicado em:  on 22 03amMon, 24 Mar 2008 10:09:43 +0000ç2008 2008 at 10:09 am Deixe um comentário

Trecho de um inventario

Trecho do Testamento contido no Inventario de Clemente Luis de Souza Netto, meu tetra avô, observe o grau da crença e a preocupação excessiva com a salvação 

Anno 1831, eras de 1835

Testamento:

Cedula ou codicilio que fás Clemente Luis de Souza Netto na forma e maneira seguinte = Em nome de Deos Amem, Saibão quantos este publico instrumento de codicilio virem que sendo no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezús Christo de mil oito centos e vinte e sette, aos doze dias do mes de Março do dito anno, neste Citio Bom Jezús, termo da Villa de São Bernardo, Comarca do Ceará em cazas de minha actual moradia, eu Clemente Luis de Souza Netto, estando com saúde e em meo Juízo perfeito, e entendimento que nosso Senhor me deo, temendo-me da morte, que acção natural, e dezejando pôr a minha Alma no verdadeiro Caminho da Salvação, Crendo, como verdadeiramente Creio na Santissima Trindade, e em tudo o que hum verdadeiro Christão deve crer, tomando por minha Advogada a Maria Santissima e Nossa Senhora, faço este codicilio na forma seguinte = Primeiramente encomendo a minha Alma a Nosso Senhor Jezús Christo, que a criou e remio pelo seu preciozo sangue, e mando que quando for Deos Servido tirarme a prezente vida, meu corpo seja envolto em habito branco, e que se-me-não faça officio Paroquial, sim o seu emporte seja entregue ao meu Reverendo Parocho pra dizer por minha alma as Missas que for servido = Declaro que sou Nactural da Freguezia de Nossa Senhora da Conceição da Matris do Frade…

Publicado em:  on 22 03pmSat, 22 Mar 2008 12:01:07 +0000ç2008 2008 at 12:01 pm Deixe um comentário

Pode ser

O sol como sempre está a pino

Quem sabe tudo pode ser diferente

meu time vencerá

Acabarão minhas dores

Sairei rindo de mim, feliz comigo

Publicado em:  on at 11:24 am Deixe um comentário