AFILOTAR

JUCA FONTENELLE, nasceu José Victor Fontenelle Filho, em 23 de fevereiro de 1920 em Viçosa do Ceará, autor do livro VIÇOSALIANAS contando as estorinhas de Viçosa, publicado em 2002.

AFILOTAR é uma delas na página 21.

                                                                AFILOTAR           

                  É deveras curioso como existem certas regras tácitas, mas religiosa e instintivamente seguidas por todo o interior do município de Viçosa. O problema é que nos acostumamos a elas e não  nos detemos como observador e é sabido que o costume vira lei.           

                Uma delas é a abreviação que se faz dos nomes próprios de pessoas, em família e daí para os vizinhos, até que se torna constante seu uso.           

                 José vira Zé aparentemente no país todo; Manuel, dá diversos como Neo, Mané. Quase sempre o primogênito não acerta com o nome correto de irmão mais novo e engendra outra coisa. Como o “bichinho” é todo graça, ficam tratando o outro daquele modo e… fica permanentemente. Tem até quem haja transformado Maria em… “Mica”!           

                 Assim é que Filomena se muda às vezes em Mena e outras em “Filó”, como no caso que vamos tratar. Entre muitas outras meninas, havia no sítio Baixa-Grande uma batisada por Filomena, a que domiciliarmente se começou a chamar de Filó.           

                Como alguns namoros e um quase noivado não deram em casamento, Filó se foi acostumando ao papel de “Titia” orientando as mais novas, como Mariana, cujo nome era uma homenagem dos pais às avós Ana e Maria.           

                Mariana era mais uma.           

                Única filha do casal que tinha quatro varões e por isso, tornou-se no “não-me-toques” dos pais. João era naturalmente mais ligado à filha que a mãe, Josefa, conhecida por Zefinha, em que pese ser um tipo alto e forte. João tinha um cuidado especial com a filha, já pré-adolescente e dotada de um porte físico que chamava a atenção. O pai fazia tudo para proteger a filha, chegando às vezes ao cúmulo de a levar ao roçado com a desculpa de que iria ajudá-lo, quando todos sabiam que o objetivo era manter a garota sob seu olhar vigilante.           

                A vizinha Filó era guia e protetora das mocinhas, especialmente para irem a festas aonde os pais não podiam ir por qualquer motivo. Filó era o elemento de confiança dos pais nesses casos, especialmente.           

                Artênio era uma das pessoas mais conhecidas porque tocava sanfona e mantinha uma orquestra, famosa na região, tocando até em Sobral…           

                Um dia começa a circular notícia de que Artênio estava promovendo uma festa no Gavião, sítio vizinho, de terra muito fértil e moças muito bonitas. A cabecinha de Mariana logo começou a esquentar, lembrando-se de que não podia perder esta, apesar de o pai estar impedido de a acompanhar por motivos de saúde e não confiar nos filhos para conduzirem e guardarem sua “rainha”, como na intimidade chamava a filha.           

                A solução foi “cantar” Filó que prestimosamente veio convidar Mariana e se por à disposição para a acompanhar e guardá-la. Com a relutância esperada, João concordou, com a recomendação especial de que Mariana somente dançaria se a Filó estivesse presente no salão.           

                No dia aprazado, Mariana se junta ao número já crescido de adolescentes acompanhadas de Filó e colocadas sob sua guarda. Iniciada a festa, Mariana dança o primeiro “toque” e o segundo. Filó atende a convite de um amigo e sai para o terreiro da festa, a fim de tomar um quinado de Sobral e por ali fica, bisbilhotando a vida dos outros e molhando a garganta, vez por outra.           

                Muito a contragosto, Mariana parou de dançar, por mais que os rapazes insistissem. A cada um ela dava a explicação compreensível, dizendo que só dançaria se a Filó estivesse presente.           

                Apenas no linguajar simplório da zona rural, ela abreviava as coisas  e saía “só danço afilotando” . Mesmo sem entender, os rapazes aceitavam a desculpa e procuravam outra.            

                Lá pelas tantas, um rapagão com quem Mariana trocava olhares não tão inocentes, já estava com a cabeça meio agoniada pelas doses de bebida e não se conteve.

                Aproxima-se, convida Mariana para dançar e ouve mais uma vez a justificativa: “Só danço, a Filó “tando”. Enlaça Mariana pela cintura, enquanto fala: “Que besteira. Eu também sei afilotar”.           

                E sai valsando com Mariana, mesmo sem a Filó tá!.

Publicado em:  on 22 03amFri, 28 Mar 2008 09:29:12 +0000ç2008 2008 at 9:29 am Deixe um comentário

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