UM MOMENTO

No minúsculo quarto havia vestígios do amor

Ainda cansadas as pernas latejavam

Sentia-se um certo conforto ao apagar das luzes

E serenamente transitava um besouro cheio de cores

Proliferavam-se as alegrias ensurdecidas

Riscavam-se as amizades enfurecidas

Caminhavam-se lentamente para o fim do espetáculo

Era um desespero o esperar

Despejavam-se vidros de perfume

Flores em profusão

Mesmo assim consumiam-se em torções

Com vagos sussurros nasalizavam-se os prazeres

Sem palavras mais, viam-se consumarem-se os destinos.

 

 

 

 

 

 

 

Publicado em:  on 22 04amWed, 30 Apr 2008 01:29:16 +0000ç2008 2008 at 1:29 am Deixe um comentário

ALÉM, MUITO ALÉM

 

De AUGUSTO LINHARES

 

 

ALÉM, MUITO ALÉM

 

Alongo os olhos da saudade, e a terra

Adusta vejo, qual se lê no poema:

- No horizonte ainda azula aquela serra,

Que foi meu berço e o berço de Iracema.

 

 

E o meu sertão em flor! E as vaquejadas…

E as alvas praias, verdes de coqueiros!

E os verdes mares, brancos de jangadas…

Como inda os vejo – os rudes jangadeiros!

 

 

De tudo aquilo ver, sonho acordado

Esquecendo reveses! E aos risonhos

E verdes anos meus volvo encantado!

Oh! Como é verde o vale dos meus sonhos!

 

Publicado em:  on 22 04amTue, 29 Apr 2008 00:26:36 +0000ç2008 2008 at 12:26 am Deixe um comentário

APENAS VISÕES

O sereno me umedeceu até a madrugada

Vi o céu estrelado com pequenas nuvens corredeiras e relâmpagos ao longe

Estou sempre no lado difícil da vida

encontro o que não quero

Quadrados magníficos separam os momentos de prazer das lamúrias

Círculos tangenciam as retas que passam em todas as direções

como pensamentos alinhados em verves da imaginação circular

Já ao amanhecer cai uma neblina que esconde o verde vivo das plantas

Sem sono, sem visões e sem lembranças continuo o dia.

Publicado em:  on 22 04amSat, 26 Apr 2008 02:13:08 +0000ç2008 2008 at 2:13 am Deixe um comentário

A SECA

De AUGUSTO LINHARES

 

A SÊCA

 

                                               Secaram-se de todos as lágrimas das fontes.

                                                                       GUERRA JUNQUEIRO.

 

 

Tudo a seca levou… Oh! Maldição!

Tudo! O gado, o cavalo, a plantação…

Não cabe em peito humano tanta mágoa:

A fome, a sede, a peste, a morte – o inferno!

Só o homem resiste! E ainda espera o inverno,

Postos, no Céu, os olhos rasos d’água!…

Publicado em:  on at 2:12 am Deixe um comentário

ONDE TUDO SE DETERMINA

Acordei trêmulo

Subi escadas rolantes vi transtornos noturnos transparentes obsequiosos

Relembrei meu passado ardente

Volúpias quiméricas

Acordeons com sons sem diapasão

Bandolins banidos

Almofadas rasgadas

Restos de sopa

Pedaços de jacarés sem couro

Diversas espadas estavam estiradas ao longo de uma corda

Verberei arrependido e sumi no miolo de um pote

Fiquei algumas horas nesse espaço escuro e sibilante

Ouvia-se um zunido estridente qual fantasma em noite de trovões

Elementos de discórdia

Transeuntes sem objetivos

Vanguardas desmesuradas

Suado fui vomitado do recipiente

 E conclui algo precioso

O fundamento da vida fora descoberto

Era no útero que tudo se definia.

Publicado em:  on 22 04amFri, 25 Apr 2008 01:03:04 +0000ç2008 2008 at 1:03 am Comentários (1)

A ESPERANÇA VIRÁ

O sumo da vida ainda está para acontecer

Os marmeleiros estão floridos

As verrugas ardentes

O ódio enxotado

Vasculho tudo e encontro um pedaço de favo de mel

Que abelhas ferozes produziram e zarparam para longe

Deixaram seus ovos que não nasceram

Pereceram como minha agonia

Agora sou um culina ando à toa corro léguas

Vejo no abdômen a ânsia de viver

E mergulho como um peixe no inferno zodiacal

Viajo além para até onde minha imaginação permite

E qual cogumelo cubro minha base vesperina

Semeio sempre o bom humor

As vezes os quilíarcos não compreendem

Vislumbro então um adamita

Que sem qualquer pesadelo leva consigo uma miniatura

Tão pequena que necessita uma lupa para visualização

Seria a esperança?

Publicado em:  on 22 04amThu, 24 Apr 2008 00:48:15 +0000ç2008 2008 at 12:48 am Comentários (1)

CUNVITE FESTA JUNINA

Adquiri o livro “ O Brasil que os Poetas Cantam”, em um Sebo do RS, guardados no livro o proprietário mantinha recortes de jornal, dentre eles dois convites de uma festa  junina que transcrevemos a seguir, não foi possível identificar o jornal nem a data de sua publicação.

 

CLUBE-CAIXERÁ

 

                                   BAILE CAIPIRA

 

                        CUNVITE E REGULAMENTO

 

   Instamos cunvidando todos os sócios e as suas famias pra o baile do dia 22 deste méis nos salões do clube Caixeirá, dizendo qui o mesmo principiará as 10 da noute e com o rigulamento abaixo:

   Premero – Os sócios deverão si apresentá  dividamente vestido e de sapato novo que num sejam ringidô a modo num fazê muito baruio nus salãos;

   Sigundo – Os moços quanto tirarem as moçasa pras danças deve levar um lencinho limpo na mão direita pra mode num sujá a cintura da moça e guardá distancia pra num fase juntamento qui é feiu;

   Tercero – Quem num subé dança que se aretire pro lado a mode num atrapaiá os sabidos;

   Quarto – Fica aproibido pelas autoridades do Crube, Mestre de Sala, entrá no baile armado de trabuco, revorve e facão de mato.

   Parágrafo premero – É proibido atirá bomba no salãos pramode num acordá as crianças das famias qui estão durmindo e mesmo as gentes veia qui sofrem de coração;

   Quinto – As veias deve sentar longe uma da otra prá num saí dis-que-dis-que e falatorio das vidas aléias qui sempre dá bolo no finar das contas, invitando assim as increncas;

   Sexto – Fica apruibido trazê cusco, cachorro grande i otros bichos pur causa das purgas e dos incômodos;

   Setimo – É proibido bebe bibidas arcolicas e muito menos abuzá da batata doce a morde os resurtados mais tarde;

 

 

 

 

CLUBE CAIXERÁ

 

 

Nois vimo lê cunvidá

Aproveitando a ucasião

Prá o sinhô se aprepará

Pras festanças de S. João!

 

 

A festa vai sê danada

Vamo tê que se espaiá…

Mais num leve a fiarada

Pra mode num trapaiá…

 

 

Venha alegre, satisfeita

Num queremo cara feia:

Si o seu véiu num se ageita,

Nois lê arrajemo pareia…

 

Pra essa noute de alegria

Bamo tambem cunvidá

Os associado e as famia

Dos ermão do Comerciá!

 

 

Qui vai sê baile colosso

Podemo lê assegurá

Pruque os veio, as moças, os moços

Vai tudo pra o Caixerá!

 

Bamo te traque i sanfona

Mió, munhata e pinhão,

Qui dessa coisas, sia dona

O Caixerá fais questão.

 

Publicado em:  on 22 04amWed, 23 Apr 2008 11:23:31 +0000ç2008 2008 at 11:23 am Deixe um comentário

DESAFIO

Desafio entre Rogaciano Leite e o Cego Aderaldo

 

Rogaciano

Este Aderaldo é tão besta,

Além de besta é tão tolo

Que a tua besteira é tanta,

Que come terra e tijolo

Beija a minha palmatória

E dá-me a mão para o bolo…

 

Cego Aderaldo

Eu precisava de um besta

Porém de um besta capaz,

Procurei no mundo um besta,

Encontrei este rapaz.

Mas não presta pra ser besta

Porque é besta demais…

 

 

 

Desafio com Otacílio Batista e Cego Aderaldo

 

 

Otacílio

Atua boca é tão grande

Que causa admiração,

A gente olhando por ela

Vê até teu coração,

E se procurar direito

Avista a China e o Japão.

 

Cego Aderaldo

Tu fala da minha boca

Mas num convém falar dela,

Que a tua também é grande

Que parece uma cancela,

Se tu não tiver cuidado

Tu breve cai dentro dela.

Publicado em:  on 22 04amFri, 18 Apr 2008 02:14:37 +0000ç2008 2008 at 2:14 am Deixe um comentário

O CEGO ADERALDO

O Cego Aderaldo nasceu na cidade do Crato-CE a 24 de junho de 1878. Segundo Rachel de Queiroz “o último dos grandes cantadores”.

 

Do livro ”Eu sou o cego Aderaldo”

“Quando eu tinha dezoito anos, meu pai morreu.

Morte macia. Veio chegando devagarinho até levar o melhor alfaiate e o melhor pai que conheci.

O passamento deu-se a 10 de março de 1896. E no dia 25, do mesmo mês, aconteceu a desgraça que me tirou a luz do mundo.

Como é que se conta a história de um moço que ficou cego porque tomou um copo d’água? Que mal pode fazer um copo d’água?

Por que eu haveria de cegar por isso apenas?

Eu havia pedido água para beber, na casa defronte à nossa

- Dona, me dê água…

Quando devolvia o copo com um “muito obrigado”, senti aquela dor horrível, um arrocho querendo sair da minha cabeça. Meus olhos ficaram logo turvos. Apertavam-se, doíam, como se estivessem cheios de espinhos de cacto.

-Meu Deus!

…………………………………………………………………………………………………………………….

Meus olhos se fecharam para sempre.

Fiquei completamente cego.

 

Poesia do Cego Aderaldo

 

As três lágrimas

 

Eu ainda era pequeno

mas me lembro bem

de ver minha pobre Mãe

em negra viuvez.

Meu pai jazia morto

estendido em um caixão,

E eu chorei então

Pela primeira vez!

 

E a pobre minha Mãe

daquilo estremeceu:

de uma moléstia forte

a minha mãe morreu.

Fiquei coberto de luto

e tudo se desfez

E eu chorei então

pela segunda vez

 

Então, o Deus da Glória,

o mais sublime artista,

decretou lá do Céu,

perdi a minha vista.

Fiquei na escuridão

ceguei com rapidez

e eu chorei então

pela terceira vez.

 

Meus prantos se enxugaram,

Das lágrimas que corriam

chegou-me a poesia

e eu me consolei.

Sem pai, sem Mãe, sem Vista,

Meus olhos se apagaram:

Tristonhos se fecharam

e eu nunca mais chorei.”

Publicado em:  on 22 04amThu, 17 Apr 2008 02:04:10 +0000ç2008 2008 at 2:04 am Deixe um comentário

UMA ENTREGA

A praia não estava deserta naquele momento.

Acabara-se a atmosfera salutar da delicadeza do silêncio…

O sol, mais que um iluminador, queimava corpos dourados.

A água batia nas pedras com veemência e vontade de agredir.

Ao meio dia, a sombra quase se acaba sob corpos andantes.

Na perfídia da vida tudo se assemelha a uma fornalha incandescente…

Aquece-se com lenha para se obter qualidade no produto,

entabula-se um diálogo com palavras emocionadas

para convencer pessoas, sorrateiramente, à entrega absoluta.

Reina, porém, a dúvida, o mistério do prazer é mais forte,

o racional perdeu-se há muito…

E, em pleno sol, já distante de todos, o mar confirmava o amor…

Publicado em:  on 22 04pmWed, 16 Apr 2008 19:29:17 +0000ç2008 2008 at 7:29 pm Deixe um comentário