O Cego Aderaldo nasceu na cidade do Crato-CE a 24 de junho de 1878. Segundo Rachel de Queiroz “o último dos grandes cantadores”.
Do livro ”Eu sou o cego Aderaldo”
“Quando eu tinha dezoito anos, meu pai morreu.
Morte macia. Veio chegando devagarinho até levar o melhor alfaiate e o melhor pai que conheci.
O passamento deu-se a 10 de março de 1896. E no dia 25, do mesmo mês, aconteceu a desgraça que me tirou a luz do mundo.
Como é que se conta a história de um moço que ficou cego porque tomou um copo d’água? Que mal pode fazer um copo d’água?
Por que eu haveria de cegar por isso apenas?
Eu havia pedido água para beber, na casa defronte à nossa
- Dona, me dê água…
Quando devolvia o copo com um “muito obrigado”, senti aquela dor horrível, um arrocho querendo sair da minha cabeça. Meus olhos ficaram logo turvos. Apertavam-se, doíam, como se estivessem cheios de espinhos de cacto.
-Meu Deus!
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Meus olhos se fecharam para sempre.
Fiquei completamente cego.
Poesia do Cego Aderaldo
As três lágrimas
Eu ainda era pequeno
mas me lembro bem
de ver minha pobre Mãe
em negra viuvez.
Meu pai jazia morto
estendido em um caixão,
E eu chorei então
Pela primeira vez!
E a pobre minha Mãe
daquilo estremeceu:
de uma moléstia forte
a minha mãe morreu.
Fiquei coberto de luto
e tudo se desfez
E eu chorei então
pela segunda vez
Então, o Deus da Glória,
o mais sublime artista,
decretou lá do Céu,
perdi a minha vista.
Fiquei na escuridão
ceguei com rapidez
e eu chorei então
pela terceira vez.
Meus prantos se enxugaram,
Das lágrimas que corriam
chegou-me a poesia
e eu me consolei.
Sem pai, sem Mãe, sem Vista,
Meus olhos se apagaram:
Tristonhos se fecharam
e eu nunca mais chorei.”