Perderam-se as estribeiras
viraram restos.
Sobraram apenas as notas musicais
que recolocadas nas posições certas
encantaram os ouvidos mais exigentes.
Perderam-se as estribeiras
viraram restos.
Sobraram apenas as notas musicais
que recolocadas nas posições certas
encantaram os ouvidos mais exigentes.
Do Livro: Antologia Ilustrada dos Cantadores
“Pedro Basílio, bom repentista, em desafio com Chico Nunes, no mote: “Eu sou melhor do que tu!” deu, a si, este brilhante elogio:
Sou rico, sou potentado,
Me considero direito,
Sou poeta de respeito,
Sempre fui considerado!
Como cantador honrado,
Desde o Norte até o “Su”!
O barão do Traipu
Me daria confiança,
Vivo cheio de esperança…
Eu sou melhor do que tu!
Chico Nunes deixou-o aniquilado, sem ação, com esta resposta arrasadora:
Sou ladrão de mandioca,
Sou a lama do barreiro,
Sou um tipo cachaceiro,
Sou imbuá, sou minhoca;
Sou como sapo na loca…
Sou poleiro de urubu,
Sou baba de cururu,
Sou chocalho sem badalo,
São um ladrão de cavalo
Eu sou melhor do que tu!”
Subi no alto do morro
vi a beleza natural
o verde no vale.
À noite
lanternas iluminaram o caminho.
Precisei argumentar
para defender a teoria da necessidade de amar
recordei os parâmetros da equação
multipliquei o eufemismo
mesmo assim
as descrenças permaneceram.
Sozinho flutuei com a imaginação…
Sempre desesperado espero uma provocação
levanto os pesos necessários
e não encanto a primavera
porque ela é convencida.
No verão, porém vocês verão.
Amores tortos
trazem dissabores
mas refazem sombras mal feitas.
As vezes desaparecem no apogeu
viram lembranças
relembram pedaços de escumilha no final do luto.
A palavra certa foi pronunciada
de leve convenceu a Anunciada.
Lamúrias, olhos quase fechados, remelas
via-se claramente o sino badalando
cumpria-se uma missão.
Se não era formulada com veracidade
pertencia a uma classe sincera.
Prenderam a réstia do sol
taparam o buraco na telha
a luz desapareceu
e no escuro fecundou-se a vida.
A RECEITA DESPACHADA DO DR GOUVÊA,
SEJA QUAL FOR A MAZELA
Tremenda gripe levou um agricultor do distrito iguatuense de Suassurana ao consultório do Dr. Gouvêa. Após receitado, o matuto perguntou:
- Mas me diga, doutor: faz mal tomar banho com catarro?
- É muito seboso, mas se você quiser tomar…
Gamaliel convidou o compadre Fernando Lisboa pra almoçar.
É hoje que tiro a barriga da miséria – pensava Fernando, já abancado para o desjejum na casa do Gama.
No início, estranha só haver baião-de-dois e uma cuia grande de farinha na mesa. Mas a fome fala mais alto e Lisboa cai de boca.
Passados quinze minutos, em vez de carne – fosse cozida, assada ou de qualquer bicho cru -, nova rodada de baião-de-dois e mais farinha na cuia. É tempo de Lisboa cismar. Mas… sai da cozinha uma das filhas de Gamaliel:
-Pai, posso trazer a galinha agora?
-Agora não. Por enquanto, só a introdução, depois vem a penosa.
Mal Lisboa se tranqüiliza e mais uma rodada do de sempre, com a filha botando a cabeça de fora da cozinha e perguntando se é pra trazer a galinha.
-Calma, filha! Primeiro é a introdução, depois vem a penosa.
Enfim, duas da tarde. A filha de Gamaliel aponta sorrateira:
Posso trazer a galinha?
-Ah, filha! Agora sim…
A menina se aproxima e joga uma galinha viva sobre a mesa, para catar o que sobrou do baião-de-dois com a farinha esparramada.
Doca do Oião saía de Sobral em direção a Reriutaba no trem do meio dia. Em certa parada, uma vendedora oferece burundangas. Anuncia seu principal produto:
-Olha o chá! Olha o chá!
Doca:
De que é esse chá, minha senhora?
-Canela
Doca cheio d’outras intenções:
E num tem um chazim mais de cima não?
As súplicas são vertentes esmeradas
nascem com aperto na alma
lúgubres caminham em fila indiana.
Absorto transmuto meu pensamento
viro órfão
quero um pão.
Fermento minha vida esquálida
desespero-me na minha essência
fustiga-me a coalizão do amor.
Inocente e sorrateiro vou sozinho carregando uma vela acesa
sem clarear muito
levo topadas inerentes.
Transporto meu humor desaparecido
quebro as vidraças alheias
separo erva-doce da cochonilha.
E mesmo assim
evadem-se os desesperos
ecoam os cantos magros e suspirantes
das morenas fogosas
que se atropelam ao amanhecer.
E sem eruditismo percorro ruas de barro batido
eclodem promessas devaneadas
e nasce um desejo sedento de ardor melancólico.
Sapatos sem salto fazem de você um elemento vulgar.
Tira-se a tampa da panela que ferve
ferve de amor ao próximo tão próximo que não se vê.
Um calor ardente
goteja suor
esfria o rosto
acalma as entranhas.