Do livro A CHUVA IMÓVEL de Campos de Carvalho
“Como roncam os que têm a consciência tranqüila! – até parece uma casa de marimbondos. Às vezes desperto com eles e ponho-me a fazer conjecturas: este é o avô, embora já esteja morto e muito bem enterrado, este é Andréa com seu belo par de seios, pena que seja minha irmã; este é o da minha mãe fora de qualquer dúvida, este o da nova empregada embora não durma em casa – este o vento, que também tem direito a roncar como qualquer criatura… Às vezes ouço o meu próprio ronco mas é muito raro, geralmente quando chego bêbado e já não penso em nada – ou então é a minha barriga que ronca, ou alguém dentro dela, ou nos meus testículos, meus filhos e meus netos: os degenerados! Dormir a esse ponto, sem ao menos um olho à espreita, como se o teto ou o céu não pudesse desabar a qualquer instante, e não houvesse em toda a extensão da terra uma só vítima do câncer ou da injustiça, um só faminto ou um único suicida, nenhuma fábrica de canhões ou nenhuma cadeira elétrica – convenhamos que é ter mesmo vocação para defunto e nem ter vindo ao mundo para outra coisa, por mais que a Constituição diga o contrário, e o rádio, e a vitrola, e a bula do papa e a dos remédios – e sobretudo cada um a si mesmo diante do espelho, vestido para o domingo.”