Do livro de Ruy Castro:
Estrela solitária
Um brasileiro chamado GARRINCHA
No sábado, Garrincha perguntou a Nilton Santos:
“Estão falando que eu vou jogar. Mas só acredito se você me disser. É verdade?”
“Parece que é”, respondeu Nilton.
Didi animou-o:
“É amanhã que você vai botar os russos pra jambrar, Mané.”
E Garrincha:
“Será que esses caras são de bola?”
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Os jogadores pegaram suas bolsas com o material e a seleção tomou o ônibus para o estádio Nya Ullevi, em Gotemburgo. A poucos minutos da partida, enquanto os jogadores eram massageados por Mário Américo, Carlos Nascimento resolveu retribuir a “cortesia” dos russos e foi xeretá-los no seu próprio vestiário. Muniu-se de flâmulas da CBD e foi oferecê-las aos adversários.
Voltou poucos minutos depois, com a mesma cara fechada, mas com um brilho nos olhos:
“Eles estão apavorados!”
Quando a seleção reuniu-se ao redor de Feola para as últimas instruções todos escutaram quando ele virou-se para Didi:
“E não se esqueça, Didi. A primeira bola é para o Garrincha.”
E para Garrincha:
“Tente descadeirá-los de saída.”
“Monsieur Guigue, gendarme nas horas vagas, ordena o começo da partida. Didi centra rápido para a direita: 15 segundos de jogo. Garrincha escora a bola com o peito do pé: 20 segundos. Kuznetzov parte sobre ele. Garrincha faz que vai para a esquerda, não vai, sai pela direita. Kuznetzov cai e fica sendo o primeiro João da Copa do Mundo: 25 segundos. Garrincha dá outro drible em Kuznetzov: 27 segundos. Mais outro: 30 segundos. Outro. Todo o estádio levanta-se. Kuznetzov está sentado, espantado. 32 segundos. Garrincha parte para a linha de fundo. Kuznetzov arremete outra vez, agora ajudado por Voinov e Krijveski: 34 segundos. Garrincha faz assim com a perna. Puxa a bola para cá, para lá e sai de novo pela direita. Os três russos estão esparramados na grama, Voinov com o assento empinado para océu. O estádio estoura de riso: 38 segundos. Garrincha chuta violentamente, cruzado, sem ângulo. A bola explode no poste esquerdo da baliza de Iashin e sai pela linha de fundo: 40 segundos. A platéia delira. Garrincha volta para o meio do campo, sempre desengonçado. Agora é aplaudido.”
“A torcida fica de pé outra vez. Garrincha avança com a bola. João Kuznetzov cai novamente. Didi pede a bola: 45 segundos. Chuta de curva, com a parte de dentro do pé. A bola faz a volta ao lado de Igor Netto e cai nos pés de Pelé. Pelé dá a Vavá: 48 segundos. Vavá a Didi, a Garrincha, outra vez a Pelé, Pelé chuta, a bola bate no travessão e sobe: 55 segundos. O ritmo do time é alucinante. É a cadência de Garrincha. Iashin tem a camisa empapada de suor, como se jogasse a várias horas. A avalanche continua. Segundo após segundo, Garrincha dizima os russos. A histeria domina o estádio. E a explosão vem com o gol de Vavá, exatamente aos três minutos.”
Foi assim que o repórter Ney Bianchi reproduziu em Manchete Esportiva aquele começo de jogo, como se tivesse um olho na bola e outro no cronômetro. Mas não estava longe da verdade. Outro jornalista, Gabriel Hannot, diria que aqueles foram os maiores três minutos da história do futebol.”
Li o livro e lembrava bem do texto. Incrível sua capacidade de extrair o melhor do que lê. A propósito, o jogo, e aquela copa (1958) estão completando 50 anos esta semana. O jornal O Povo estará fazendo uma recontituição da jornada vitoriosa nos próximos números, a partir de hoje. Nessa primeira reportagem (hoje), uma entrevista com Pepe, reserva de Zagalo na copa, diz, entre outras coisas, que o jogo mais dificil foi contra a Russia.