Do livro: VAIANDO O SOL – O melhor do humor e da molecagem cearense de Tarcisio Matos
Bernardino, vendedor de rapadura no Cariri, empunhava uma peixeira (“lambedeira”), doze polegadas de fazer inveja – herança do falecido pai. Súbito, ao abaixar-se para apanhar rapaduras, o cabo da faca aparece, ocasião em que, coincidentemente, ali passava um homem, que o adverte:
- Por acaso o senhor não sabe que é proibido portar faca na cidade?
- Não, pelo amor de Deus, eu não sabia…
- O jeito é o senhor me entregar a arma…
Sentido pela perda da relíquia, Bernardino já nem sentia ânimo em vender suas rapaduras. Chega uma senhora e o vê acabrunhado. Bernardino conta o ocorrido. Ela pergunta quem lhe tomou a peixeira, ele responde: “uma autoridade”, Ela pede que o aponte.
- Aquele ali, no meio da praça, conversando com seu Otávio!
Assustada ela dá o toque:
- Vixe, Bernardino! Aquele é o juiz de Direito da cidade!
Mais que depressa, o vendedor de rapadura larga tudo, corre até o homem, pega-o pelo colarinho e aponta o dedo na cara.
- Se enxergue, seu bosta! Me dê cá minha faca! E eu feito besta, pensando que tu era soldado da polícia!…
Mulher bate na porta da casa de Edmilson Freire.
- Ô de casa!
Do fundo duma rede, ele só pergunta quem é. A voz responde esperançosa:
- É uma esmola, meu senhor!
- Pois bote aí por debaixo da porta que depois eu pego.