A IRMANDADE DOS PENITENTES

Essa história precisa ser mais divulgada

 

 

A IRMANDADE DOS PENITENTES

 

Do livro: A RELIGIOSIDADE NO CEARÁ

                        MUSEU DO CEARÁ

 

 

“Vi Terras da minha terra

Por outras terras andei.

Mas o que ficou marcado

No meu olhar fatigado,

Foram terras que inventei”.

         Manuel Bandeira

 

 

            Em meados de 1891, entre vários peregrinos, chegava a Juazeiro José Lourenço Gomes da Silva. Procurava encontrar sua família, que já estava morando na cidade. Pouco tempo depois, Lourenço tornou-se um beato e o Pe. Cícero começou a ocupar lugar de destaque dentro de sua fé católica. Recebia os tradicionais ensinamentos do Taumaturgo e incorporava-os na sua forma de sentir, pensar e agir. Afinal, era um sacerdote que (por razões ainda não suficientemente estudadas) se transformou em um padrinho-santo, um mito, por intermédio de complexas e inextricáveis(?) elaborações do imaginário popular do sertão.

            Depois de morar algum tempo em Juazeiro, Lourenço (com sua Família) arrendou um pedaço de terra em Baixa Danta, no município de Crato. Sempre guiado pelos princípios da fraternidade evangélica, orientou a formação de uma pequena comunidade de camponeses. Sua casa, então, ficou rodeada de outras moradias feitas e habitadas por sertanejos, vítimas da concentração fundiária. Todos trabalhavam. A abundante e diversificada produção agrícola era dividida, pois inexistia o objetivo de acumular bens.

            Em 1926, a cotidiana dedicação da comunidade ao trabalho na lavoura e ao rosário foi interrompida, pois o dono do Sítio Baixa Danta vendeu o terreno e o novo proprietário exigiu a saída de Lourenço, que, sem fazer questão, decidiu pedir ajuda ao Pe. Cícero. A fim de resolver a questão, o sacerdote ofereceu uma de suas propriedades para o reinicio do trabalho comunitário interrompido em Baixa Danta. Ainda em 1926, Lourenço e vários camponeses ocupam a nova terra, chamada de “Caldeirão dos Jesuítas”.

            Não havia, no Caldeirão, nenhuma benfeitoria. Mas com pouco tempo e muito trabalho, o local começou a ficar cheio de plantações. Sob a égide do Beato Lourenço, várias famílias construíram uma nova comunidade. No inicio, a produção era, grosso modo, somente agrícola. Com o passar dos anos, novas atividades produtivas entraram em cena. Pouco a pouco, surgiu um conjunto de trabalhadores especializados: pedreiros, carpinteiros, ferreiros, fabricadores de objetos com flandre (copos, panelas, baldes…), ceramistas, artesãos dedicados ao trabalho com couro e cipó… Começaram a produzir sabão, tecidos, redes, lençóis, toalhas…

            O excedente da produção agrícola era vendido para comprar o que faltava, era guardado pelo Beato para alguma necessidade extra ou encontrava destino nas ajudas aos necessitados. Em 1932, por exemplo, o Caldeirão acolheu e alimentou mais de duzentos sertanejos tangidos pela grande falta d’água que deixou o Nordeste em profundo desespero. Mas a ajuda não acontecia somente nos períodos de seca. José Lourenço sempre seguia  o princípio cristão “amai-vos uns aos outros”, que a igreja da época desconhecia ou fazia de conta não conhecer. Com o passar do tempo, o Caldeirão crescia. Chegou a possuir quase 1.000 camponeses.

            Na comunidade, a produção era dividida de acordo com a necessidade de cada família. Esta era uma das motivações para o trabalho, pois quem estava na labuta diária percebia as vantagens do cooperativismo.

            Não havia comércio interno: os produtos agrícolas eram guardados e depois distribuídos. Em síntese, todos viviam para o trabalho e as orações. A religiosidade era um importante fator de união, de cooperativismo, dava motivação para o trabalho e inspirava uma vida apoiada na solidariedade bíblica. O sentido para a vida, a morte, o trabalho, o lazer, a penitência, a organização da comunidade, as relações sociais, tudo isso era gerado e movimentado sobretudo pela religiosidade.

            Vale salientar que o Caldeirão não era isolado. Sua economia não era totalmente independente. O dinheiro não circulava entre os membros da comunidade, mas era usado pelo beato no comércio com outros sítios. Este comércio, é importante ressaltar, não possuía finalidade lucrativa, mas apenas para obter produtos em falta na comunidade. Aliás, nada era feito com a intenção de acumular capital, para enriquecimento pessoal. As reservas de alimentos e o dinheiro guardado pelo beato tinham finalidades claras: a melhoria infra-estrutural do Caldeirão, a realização de obras ou a compra de mercadorias para o bem comum. Internamente, não havia valorização dos produtos como objetos de compra e venda, mas como bens de consumo.

            Em setembro de 1936, a polícia invade e destrói o Caldeirão. Diante da ameaça dos fuzis, os camponeses são expulsos das terras onde pacificamente trabalhavam com o rosário no pescoço. Dizia a polícia que a comunidade era um perigoso antro de fanatismo, uma ameaça contra a “ordem social” e a civilização.

Publicado em:  on 22 07amFri, 25 Jul 2008 00:18:03 +0000ç2008 2008 at 12:18 am Deixe um comentário

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