História de Loucos
Do livro: “MUNDO DOS CORONÉIS” de Antonio Barroso Pontes
Segunda Edição – Rio de Janeiro – 1970
…não podia deixar de recordar um caso verificado com uma minha tia, quando corria o ano de 1926, e eu estava passando uma temporada na residência dos parentes de meu pai, na Rua 24 de Maio, em Fortaleza.
Rica, bonitona, da melhor sociedade da capital alencarina, a minha tia Sindô ostentava uma vaidade impressionante, especialmente com o adorno de jóias caríssimas.
Certa manhã, logo após o café matinal, ordenou-me ela, em tom severo:
- Toinho, troque sua roupa branca, calce as botinas pretas, ponha a gravata de laço e vamos sair.
Ora, eu que já me preparava para a “pelada” na praia de Iracema fui tomado de grande tristeza e revolta. Contudo, perguntei:
- Para onde vamos titia?
- Vou lhe proporcionar uma grande satisfação em sua vida. Vamos passear, visitar o Passeio Público, o Asilo e você tomará sorvete na calçada da Farmácia Pasteur. E ainda dará um passeio de bonde.
Nada disso estava me interessando. O molecório me esperava na praia e o que eu queria era jogar e tomar banho de mar. Mas que poderia eu fazer? Qual a saída de um sobrinho pobre, diante de uma tia rica? Era obedecer e concordar, calado, sem ao menos resmungar.
E saímos pela rua, ela distribuindo simpatia e eu me vendo doido com os calos das botinas. Pegamos o bonde e fomos direto a Parangaba em visita ao Asilo.
Ao penetrarmos no casarão, andei me apavorando com tanta gente magra, cabeluda, uns aparentemente equilibrados e outros ostentando a mais triste das desgraças humanas.
Em certa dependência, minha tia, que relembrava uma duquesa em férias, descobriu um homem de boa aparência, bem vestido, com uma luneta à frente dos olhos, na direção do céu azul.
Dona sindô fitou o homem que lhe parecia um profeta, e perguntou com a maior delicadeza:
- Que é que o cavalheiro está vendo através dessa luneta?
Com admirável seriedade e respeito, o homem respondeu:
- Estou vendo outro mundo.
- Notável, disse a tia Sindô. Seria possível ao senhor procurar ver, com esse magnífico telescópio, se o meu marido se encontra no céu, no inferno ou no purgatório?
- Pois não, Excelência.
E volta a olhar para o firmamento, manobrando a luneta em vários sentidos e terminando por apontá-la para o chão. Aí, visivelmente atarefado em desincumbir-se de sua missão, disse com a luneta ainda nos olhos:
- Não está no céu.
Mais uma manobra e afirma:
- Não está no purgatório.
Fazendo em seguida outro movimento, constata, por outro lado, que o homem não está no inferno.
Nisto, Dona Sindô comentou:
- Mas ele tem que estar no céu, no purgatório ou no inferno, desde que morreu há quinze anos e não se encontra no mundo dos vivos.
O homem da luneta, demonstrando muita delicadeza e o imperturbável desejo de encontrar o marido de minha tia, olhando mais uma vez para o céu, disse com certo alarme e euforia:
Ah! Lá está ele, na porta do céu, há quinze anos, sem poder entrar.
E a minha tia, insistente:
- Que estará ele fazendo há tantos anos na porta do céu?
Com toda seriedade, o “cientista” responde:
- São Pedro está serrando os chifres dele.