Subi ruidoso os muros do hospício
Levantei a tenda do amor e você não viu
Seria uma imagem imaginaria
Ou um recôndito estremecido?
Subi ruidoso os muros do hospício
Levantei a tenda do amor e você não viu
Seria uma imagem imaginaria
Ou um recôndito estremecido?
Do livro: ANTOLOGIA DO FOLCLORE CEARENSE de Florival Seraine
Edições UFC – Fortaleza – 1983
Publicadas inicialmente em 1913, há quase cem anos…
PROLÓQUIOS RIMADOS
Júlio C. Monteiro (1867 – 1933)
(Em Revista Escolar do Instituto de Humanidades, Fortaleza, abril 1914)
- Promete mundos e fundos.
- Compra Maria, da bolsa vazia.
- Ri-se o sujo do mal lavado e o roto do esfarrapado.
- Atirou no que viu, matou o que não viu…
- Quem come do meu pirão, leva do meu cinturão.
- Aleluia, aleluia, carne no prato farinha na cuia.
- Rente como batente.
- Boni-t-o-tó, macaxeira, mocotó!
- Você viu o bola, vontade também consola!
- Quem vai ao vento perde o assento…
- O que é do home, o bicho não come!
- Não sei o que faça: se case ou se assente praça!
- Quem canta, seus males espanta.
- Quem chora seus males deplora.
- Ou vai ou quebra ou o diabo leva.
- Parentes são os dentes.
- A ocasião é que faz o ladrão.
- Filho de gato mata rato.
- Antes que cases, vê o que fazes…
- O casamento e a mortalha no céu se talha.
- O galo aonde canta, aí janta.
- Casa de Gonçalo, onde a galinha canta mais que o galo…
- Boa romaria faz quem em sua casa está em paz.
- À boda e o batizado não vás sem ser convidado.
- Falar do mau, preparar o pau.
- Viúva rica, casada fica.
Do livro: A PENA E A LEI de Ariano Suassuna
AGIR EDITORA LTDA
Rio de Janeiro – RJ
“Esse homem foi comer manga-jasmim:
mas com tanta ganância e alvoroço,
que, na pressa, engoliu mesmo o caroço!
Mas disse a todo mundo: “É bom assim”!
Logo a dor apertou: ele achou ruim,
bem num pé-de-parede fez escora.
Espremeu-se, lutou bem meia-hora
e botou tanta força que tossiu:
o certo é que o caroço escapuliu
mas o fundo da calça voou fora!”
“Quando estava indo para St. Ives, encontrei um homem com sete esposas. Cada esposa possuía sete sacos e em cada saco havia sete gatos. Cada gato tinha sete filhotes. Se contarmos os filhotes, os gatos, os sacos e as esposas quantos estavam indo para St. Ives ?
A pergunta é:
Se contarmos os filhotes, os gatos, os sacos e as esposas quantos estavam indo para St. Ives ?
A resposta seria nenhum, o narrador apenas encontrou essas pessoas.
só quem posso afirmar que estava indo pra St. Ives era o proprio narrador da charada! Então só posso afirmar que apenas um estava indo!
De colocação do leitor Marcelo, 2008/09/18 at 10:44 AM
Aguardamos comentario do Marcelo
“A não ser por pequenas diferenças de formulação, a charada abaixo é idêntica à encontrada no papiro de Rhind, um rolo de pergaminho egípcio contendo tabelas matemáticas e problemas, copiados pelo escriba Ahmes em torno de 1.650 a.C.
“Quando estava indo para St. Ives, encontrei um homem com sete esposas. Cada esposa possuía sete sacos e em cada saco havia sete gatos. Cada gato tinha sete filhotes. Se contarmos os filhotes, os gatos, os sacos e as esposas quantos estavam indo para St. Ives ? ”
matematico
E você saberia responder esta charada ???”
Está posta a charada proposta pelo Marcelo, quem se habilita respondê-la?
Estamos tentando…
Cibele se foi.
Saiu de minha vida como um passarinho que abandona o ninho.
Silencioso caminhei sem rumo.
E para minha surpresa
no final do beco
encontrei Cibele…
Do livro: O QUINTO NAIPE DO BARALHO de Carlos Newton Júnior
Carlos Newton Júnior nasceu no Recife-PE em 07 de setembro de 1966 e é formado em Arquitetura e História.
“A morte do Capitão Corisco me faz pensar no filósofo Aristóteles e sua visão da Arte enquanto imitação corretiva do real. Descontente com o feio do mundo, o artista dedica-se à criação da Beleza, mesmo partindo da desarmonia encontrada na natureza e nas aços humanas. Senão vejamos:
1 – Os fatos:
Cristino Gomes da Silva Cleto, vulgo “Corisco”, morreu assassinado, metralhado pelas costas pelo oficial de volante José Osório Farias, o tenente “Zé Rufino”. Não podia mais lutar, pois estava aleijado dos dois braços, devido a um só tiro de fuzil, recebido em combate, meses atrás. Trajava vestes civis, e não a paramentada farda cangaceira. Usava cabelo curto. Junto com sua mulher, Sérgia Chagas, a “Dadá”, tentava sair da Bahia e chegar ao Maranhão, onde pensava em se estabelecer e levar uma vida normal. A volante de Rufino os alcançou no município de Brotas de Macaúbas, em algum dia do mês de maio de 1940. Dadá recebe um tiro na perna, mas sobrevive. Com o membro amputado, só veio a falecer recentemente, em Salvador, onde levava a vida como costureira, viúva pela segunda vez e cercada de filhos e netos. Corisco não morre de imediato, e sim horas mais tarde, na carroceria de um caminhão que transportava o casal, ao que tudo indica para ser atendido por algum médico, difícil de encontrar naquele fim-de-mundo.
2- A transfiguração do real – primeira versão (ou versão “da Direita”):
Corisco, o “Diabo Louro”, morreu em combate. Não estava no fim de sua carreira, mas no auge, como sucessor e vingador de Lampião, morto dois anos atrás. Trajava suas vestes de guerreiro antigo e desgarrado no tempo, com seus apetrechos de couro, o dourado das medalhas e moedas refulgindo ao Sol, com seus punhais, suas cartucheiras e um céu de estrelas à cabeça. Atirava e rolava na areia a um só tempo, defendendo-se da emboscada de Zé Rufino como um felino grande e perigoso, uma Tigre feroz e homicida. Suas alpercatas de rabicho pereciam de seda, tal agilidade felina da dança macabra. O compasso era dado pela longa cabeleira amarela, uma bandeira desfraldada, solta no vento. Seus olhos faiscavam fogo, enquanto que, de sua boca, saía em alto e bom som, o parraxaxá em que afirmava sua disposição de lutar até a morte. À ordem do Tenente, “Te entrega, Corisco!”, O cangaceiro respondia.:
Eu não me entrego não,
porque não sou passarinho
pra morrer numa prisão!
Eu não me entrego a Tenente,
nem me entrego a Capitão,
eu só me entrego na Morte,
de parabélum na mão!
Recebendo o tiro fatal, Corisco levanta-se, abre os braços – o rifle firme na mão direita, o longo punhal na esquerda -, gira em torno do seu próprio corpo e, antes de tombar morto, grita as suas derradeiras palavras: “Mais fortes são os poderes de Deus!”.
2.1 – A transfiguração do real – segunda versão (ou versão “da Esquerda”):
Existe ainda uma outra versão da morte de Corisco, ou uma variante desta segunda versão. A diferença é mínima, mas fundamental, principalmente do ponto de vista ideológico. A narrativa segue idêntica à anterior, até chegar às palavras finais do Cangaceiro. Aí, ao invés de “Mais fortes são os poderes de Deus!”, ele grita: “Mais fortes são os poderes do Povo!”.
Não há como negar que a morte transfigurada de Corisco, qualquer que seja a versão escolhida, é muito mais bonita do que a versão considerada real. E é por isso que a opção dos artistas, populares ou eruditos, será sempre a de menosprezar a versão histórica para se apegar às outras, portadoras de um valor estético que a primeira não possui, de jeito nenhum. A verdade do artista quase nunca coincide com a do cientista. E morrer na carroceria de um caminhão, com os intestinos de fora, não tem mesmo a menor graça,”
Todas as vezes que vejo o horizonte amarelado
fico pensando além da minha imaginação.
Risco a vida existente
troco de nome
caminho entre árvores sombrias e carameladas pelo sol
tenho momentos sublimes de máximo prazer
serpenteio a margem do rio
fecundo nova vida
quimérica, estonteante
que se desfaz num leve estalar de dedos.
Do livro “No Tempo de Lampião”, de Leonardo Mota, pg. 196:
2.ª Edição. Imprensa Universitária do Ceará – 1967
Fortaleza
Leonardo Mota, n. a 10.05.1891 em Pedra Branca-CE, f. em Fortaleza-CE a 02.01.1948
Bacharel pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro em 1916. É considerado o Príncipe dos folcloristas nacionais.
COMPARAÇÕES MATUTAS
Caro que nem ovo em tempo de quaresma.
Valente que nem cobra de resguardo.
Sono leve como o do xexéu.
Perverso que só jararaca do rabo fino.
Malcriado como rapariga de soldado em portão de feira.
Desconfiado como cachorro que quebrou louça.
Mole que é ver lingüiça crua.
Seco que nem língua de papagaio.
Apertado que só pinto no ovo.
Chorão que nem bezerro desmamado.
Besta como aruá.
Depressa como quem furta.
Viagem aperreada como de bacorinho em caçuá.
Entrar macio que só colher em mamão maduro.
Padecer que só sovaco de aleijado em muleta.
Apanhar que nem couro de pisar tabaco.
Tão besta que, pra ser burro, só falta estercar redondo.
Suar que só tampa de chaleira.
Andar devagar como quem procura com os pés pinico no escuro.