Do livro: FANÁTICOS E CANGACEIROS de Abelardo F. Montenegro
Editora Henriqueta Galeno
Fortaleza, Ceará – 1973
Fanático é o místico em ação, o que segue semi-automaticamente, o imperativo de sua consciência de grau inferior. É o cego executor dos ditames dessa rudimentar consciência. É o que marcha diretamente ao alvo sem temer conseqüências, porque se julga impelido por força estranha, sobrenatural, que o elegeu para realização do ato heróico.
Sente-se o fanático membro de uma ordem sacra, que está em ligação mais íntima com a Divindade.
A obediência à disciplina, o espírito de sacrifício, o desapego ávida e à fortuna, tudo se explica pela certeza do fanático de agir de acordo com a vontade divina, obediência que lhe valerá a recompensa final.
O fanático não é mais o sertanejo desamparado diante das forças cósmicas. Sabe por que vive e por que trabalha. Desaparece qualquer primária perplexidade do seu espírito em face do meio.
O católico não conceitua o fanatismo do mesmo modo que o protestante. “Enquanto o fanático funda sua religiosidade no erro, o católico está de posse da verdade religiosa. Por mais que este multiplique os atos externos da piedade que lhe vai na alma, jamais pode ser comparado com aquele, que, por viver nas trevas da falsidade, aberra em todas as manifestações das suas crenças fanáticas”.
O fanatismo não é um fenômeno cearense, mas nacional, universal.