TIPOS MÍSTICOS – 2 – O BEATO

Do livro: FANÁTICOS E CANGACEIROS de Abelardo F. Montenegro

                Editora Henriqueta Galeno

                Fortaleza, Ceará – 1973

 

 

            Beato é “um sujeito celibatário, que faz votos de castidade (real ou aparentemente), que não tem profissão, porque deixou de trabalhar, e que vive da caridade dos bons e das explorações aos crentes”, define Xavier de Oliveira.

            “Passa o dia a rezar nas igrejas, a visitar enfermos, a enterrar os mortos, a ensinar orações aos crédulos, tudo de acordo com os preceitos do catecismo”.

            O beato difere do penitente. Enquanto o primeiro usa traje peculiar e faz voto de castidade (real ou aparentemente), o segundo não traja caracteristicamente e não é obrigado a conservar-se celibatário.

            “A alma rústica da gente sertaneja é sempre uma estalagem aberta ao acolhimento desses messias errantes, que surgem repentinos do seio das caatingas e depressa granjeam a confiança da boa fé inesgotável do matuto”.

Publicado em:  on 22 10pmFri, 17 Oct 2008 17:30:06 +0000ç2008 2008 at 5:30 pm Deixe um comentário

TIPOS MÍSTICOS – 1 – O PENITENTE

Do livro: FANÁTICOS E CANGACEIROS de Abelardo F. Montenegro

                Editora Henriqueta Galeno

                Fortaleza, Ceará – 1973

 

 

            “Penitente é aquele que, às horas tardias da noite, se reúne a outros junto aos cruzeiros, ao pé das cruzes das estradas, diante de capelas e à porta dos cemitérios, e aí sob a chefia do “decurião” ou do “ajudante”, reza, canta e se flagela com as costas desnudas, por meio de “disciplinas”, durante certo tempo.

            Os penitentes provinham geralmente das camadas mais baixas da população, em geral, principalmente dos trabalhadores rurais. Alguns deles ciliciavam-se de tal forma que o decurião se via forçado a arrancar das mãos do penitente as disciplinas.

            As disciplinas eram formadas por um pequeno molho de três pedaços de ferro, de uns cinco ou seis centímetros de comprimento cada um – “cachos de disciplinas – de gumes afiadíssimos, em uma das extremidades um orifício pelo qual se enfia um cordão, ou correia de couro de veado que os liga entre si”. Em lugar de disciplinas de ferro, usavam alguns penitentes outro instrumento chamado “maxixe”. … “Um pouco de cera de abelha de uns seis centímetros de comprimento, a que dão forma ovalada, cheio de pequenos estilhaços de vidro cortantes como navalha ou, então de pedaços de chumbo a que prendem tachas de ferro ponteagudas”, eis o que consiste o maxixe.

O dr. Fernandes Távora, que viveu na cidade do Crato, afirma que se vivia em plena Idade Média, havendo “em todos esses usos uma forte dose de ignorância e fanatismo, que só a civilização iria, pouco a pouco eliminando.”

Publicado em:  on 22 10pmThu, 16 Oct 2008 20:53:42 +0000ç2008 2008 at 8:53 pm Deixe um comentário

AS SANTAS MISSÕES

Do livro: FANÁTICOS E CANGACEIROS de Abelardo F. Montenegro

                Editora Henriqueta Galeno

                Fortaleza, Ceará – 1973

 

 

            Do ponto de vista religioso, as santas missões significavam “o enviamento de alguma pessoa, ou pessoas, com autoridade de instruir pecadores, de fazer que se arrependam de suas culpas, de trabalhar enfim pela salvação das almas”.

            Missionários cruzavam os sertões. Fazendas, povoações, vilas e cidades sertanejas eram visitadas pelos incansáveis religiosos, cujo zelo ardente se manifestava pela importância que davam ao sacramento da confissão e, consequentemente à penitência.

            O povo durante alguns dias, se aglomerava em torno dos missionários, ouvindo-lhes as prédicas reveladoras de um outro mundo e que lançavam o sertanejo nas sendas do insondável mistério.

Publicado em:  on 22 10pmWed, 15 Oct 2008 17:37:20 +0000ç2008 2008 at 5:37 pm Deixe um comentário

DITADOS EM VERSOS

Do livro “Adagiário Brasileiro” – Leonardo Mota

Adagiário Brasileiro. 2ed. Fortaleza, BNB, 1991

 

Leonardo Mota, n. a 10.05.1891 em Pedra Branca-CE, f. em Fortaleza-CE a 02.01.1948

Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de Fortaleza, Ceará, em 1916. É considerado o Príncipe dos folcloristas nacionais.

 

Toda a maré enche e vaza,

Deixa a praia descoberta…

Vai-se um amor e vem outro,

Nunca vi coisa tão certa!

 

 

O tempo é senhor de tudo,

Sem tempo nada se faz,

Tempo dá e tempo tira,

Tempo leva e tempo traz.

 

 

Uma mosca morde o homem,

Depois vira uma ferida,

Da ferida o homem morre:

A mosca tirou-lhe a vida!

 

 

Duvido haver como este

Um ditado mais profundo:

Dinheiro e mulher bonita

É quem governa este mundo.

 

 

Sogro e sogra,

Milho e feijão

Só dá resultado

Debaixo do chão.

Publicado em:  on 22 10pmTue, 14 Oct 2008 15:55:35 +0000ç2008 2008 at 3:55 pm Deixe um comentário

O MISTICISMO SERTANEJO

Do livro: FANÁTICOS E CANGACEIROS de Abelardo F. Montenegro

                Editora Henriqueta Galeno

                Fortaleza, Ceará – 1973

 

            “As populações sertanejas são profundamente místicas. Sentem-se insopitavelmente atraídas pelo maravilhoso, pelo sobrenatural, por tudo aquilo que, inexplicável para elas, significa a manifestação de vontade divina, ou disposição de potência que não é deste mundo.

            A ignorância, o anseio de justiça e de uma vida melhor o abandono em que se encontram na desigual luta contra a natureza tornam as populações sertanejas extremamente predispostas ao milagre, à credulidade e a liderança de caudilhos religiosos que lhes acenam com o paraíso, que lhes indiquem o caminho da salvação e que lhes tornem menos espinhosa a existência.

            O místico prescinde da razão. Aspira à direta comunicação com a divindade. Não raciocina, contempla.

            O misticismo sertanejo difere do misticismo dos santos. Enquanto o santo se esforça por elevar a alma a Deus, o sertanejo procura fazer com que Deus baixe até ele.

            O estado de espírito das populações sertanejas não podia deixar de refletir o caldo de cultura, onde germinavam beatos, fanáticos, crentes, iluminados, criminosos, ingênuos, sugestionáveis.”

Publicado em:  on 22 10pmMon, 13 Oct 2008 23:17:50 +0000ç2008 2008 at 11:17 pm Deixe um comentário

FOI ASSIM

Um sorriso amarelo fluiu sem conexão

Desesperado transpus o tapume vedante.

Semblante triste desafiou meu orgulho

a atmosfera era tempestuosa

nada deu certo.

Sai arquejando

andei sem limites

providenciei minha carta de alforria.

Publicado em:  on 22 10pmSun, 12 Oct 2008 14:47:26 +0000ç2008 2008 at 2:47 pm Deixe um comentário

HÁ DE CHEGAR O DIA…

A cadência no caminhar das pessoas ritmou minha ação.

Esperei um sinal que viesse de qualquer lugar

para mudar de rumo.

Nada encontrei.

Nada vi.

Nada interpretei.

Continuei assim, inerte, macambúzio

na esperança de um dia ver o que penso

crer no que me ensinaram

despertar feliz.

Publicado em:  on 22 10pmFri, 10 Oct 2008 17:13:32 +0000ç2008 2008 at 5:13 pm Deixe um comentário

TERRÍVEL INCÔMODO

A tarde esfriou.

Nem percebi que desabara uma chuva teimosa.

Nada fazia desaparecer a insônia que se apoderara de mim

calculei os diâmetros de alguns círculos

pensei em utilizá-los

mas eles restringiam a área de domínio.

Vasculhei todo meu íntimo

encontrei um pedaço de um grão de lentilha

enfiado no meu pensamento.

Era muito constrangedor e doído

expurgá-lo era impossível.

Restou-me apenas a descoberta

e a convivência necessária para sobreviver.

Publicado em:  on 22 10pmThu, 09 Oct 2008 15:51:11 +0000ç2008 2008 at 3:51 pm Comentários (1)

VISÃO ESTÚPIDA

Mergulhei num ambiente tenebroso

procurei ajuda

pedi socorro

lamentei

prostitui-me

escovei os dentes.

Sucumbi num abstracionismo coloidal

carreguei dezenas de tijolos

cacos de telhas

dentes estragados.

Vi um leão sanguinário fugindo de uma lanterna acesa.

Publicado em:  on 22 10pmWed, 08 Oct 2008 21:29:26 +0000ç2008 2008 at 9:29 pm Deixe um comentário

FINAL

Tripudiei com a verdade.

Maquinei com neurastenia.

Quebrei em pedaços o cinzeiro verde

elástico, ficou o buraco na porta.

O amor deixou de ser

a mentira reinou.

Publicado em:  on 22 10pmTue, 07 Oct 2008 14:10:32 +0000ç2008 2008 at 2:10 pm Deixe um comentário