mais Campos de Carvalho

Do livro: A CHUVA IMÓVEL de Campos de Carvalho

                Obra reunida – Rio de Janeiro: José Olympio, 1995

 

“Agora estou andando de bicicleta e não quero ser perturbado, façam-me parecer com o que querem mas deixem-me andar na minha bicicleta, na minha e não na do irmão: esta eu construí agora mesmo e é dotada até de asas, como de resto a do meu irmão também era – mas esta é realmente minha. Saiam da frente se não querem ser atropelados, que não é do meu feitio atropelar ratos nem fabricantes de ratos, e muito menos fabricantes de falsos ratos, com a consciência de homem como esta minha. Simplesmente saiam da frente.

Esta é a cidade em que nasci e em que morri, a minha cidade, e já a vi uma vez assim de cima em companhia de Andréa, mas na verdade apenas em minha companhia, eu e eu mesmo depois que me descobri – não depois que me fizeram Vocês, pulhas, sem saber o que estavam fazendo. É uma bela cidade como qualquer cidade, só agora estou sabendo, com a sua gente e os seus sonhos de gente, não de filhos de Deus ou de filhos da puta, que isso não conta e faz parte dos esgotos da cidade. É uma cidade sobretudo minha, não igual a nenhuma outra, com as suas pedras que ainda trazem as marcas dos meus pés, mas dos meus dois pés e não dos quatro que Vocês querem me emprestar me emprestando – e sobretudo os meus pés da infância, que nem vocês nem ninguém me poderão roubar de cima de minha bicicleta.

Podem fazer-me focinhar à vontade, nesta falsa escuridão ou em qualquer outra, com este rabo que me deram de empréstimo e lhes deve estar fazendo falta: no fundo quem está focinhando são os Senhores mesmos, os Senhores e não Vocês, que não gosto de intimidade com quem não conheço nem quero conhecer, ou conheço de sobra e prefiro manter à distância.

Aqui em cima o frio é outro, nem é um frio, é o vento que voltou a bater no meu rosto como antigamente, assim de encontro a mim e à minha bicicleta – depois que me vi refletido no lago e vi que ainda era o mesmo, e que tudo não passava de uma pulhice de pulhas, de coisa sem imaginação de quem nunca teve mesmo imaginação, repetindo-se sempre o mesmo jeito, ainda quando fazem explodir uma bomba atômica ou uma superbomba, depois de anunciar aos quatro ventos a última maravilha do século.

Sabem o que falta aos Senhores debaixo de minha bicicleta – o que sempre lhes faltou e há de lhes faltar sempre, por toda sua inútil eternidade?

Apenas isto: o senso de humour – se é que porventura sabem o que isso significa em inglês, ou mesmo em dinamarquês.”

Publicado em:  on 22 11pmSun, 16 Nov 2008 17:21:24 +0000ç2008 2008 at 5:21 pm Deixe um comentário

PREJUIZO

Assimilei mas não entendi de pronto

reverberei horrores

calibrei meus pneus

rodopiei

calcifiquei as entranhas

depositei no banco algumas moedas de compreensão

e vi que o rendimento foi irrisório.

Publicado em:  on 22 11pmSat, 15 Nov 2008 12:51:44 +0000ç2008 2008 at 12:51 pm Deixe um comentário

SUSPIROS

Do livro: O analista de Bagé de Luis Fernando Veríssimo

                71.ª Edição – Primavera de 1982

  

            “Um homem foi procurar uma vidente. Ela leu a sua mão, em silêncio. Depois espalhou as cartas na sua frente e as examinou longamente. Finalmente olhou a bola de cristal. E concluiu:

            - Você vai morrer num lugar com água.

            - Uma banheira?

            - Não. Um lugar maior.

            - Uma piscina…

            - Vejo uma cidade. Água por todos os lados. Em vez de ruas, tem água…

            - Veneza!

            - Isso.

            - Eu vou morrer em Veneza?

            - Vai.

            - Como?

            - Hmmm. Vejo barcos… Gôndolas… Espere! Uma mulher.

            - Quem é ela?

            Você não a conhece. Ela aparecerá em sua vida em Veneza. Gôndolas, sim, gôndolas. Alguma coisa refletida nas águas escuras do Grande Canal. É a lua. Uma lua cheia. O gondoleiro canta uma música antiga. Estranho…

            - O Quê?

            - A mulher. Tem uma máscara vermelha. Veste uma capa preta, e uma máscara vermelha tapa o seu rosto.

            - Ela não tira a máscara?

            - Calma. Tira.

            - E então?

            - Ela é linda. Seus olhos são roxos. Ela diz uma palavra… Não consigo decifrar…

            - Tente.

            - É … Aldabar. Isso. Aldabar.

            - Ela dirá essa palavra três vezes antes do raiar do dia. A primeira no Grande Canal. A segunda sob a Ponte dos Suspiros…

            - Continue.

            - Vocês chegam ao portão. O luar banha tudo. Há um cheiro de jasmim no ar. Vocês entram num castelo. Vejo mármore. Cristais. Um vulto…

            - Quem é?

            - Não deu para ver. Vocês sobem uma escadaria.

            - Para o quarto?

            - É

            - Espere um pouquinho. A palavra…

            - Aldabar…

            - Aldabar. Ela dirá três vezes?

            - É.

            - Mas até agora ela só disse duas.

            - Exato.

            - Continue.

            - Vocês entram num quarto. Há uma cama enorme, banhada de luar. A mulher desaparece sem fazer ruído.

            - Onde é que ela foi?

            - Estou tentando ver… Está escuro.

            - Mas e a lua?

            - Desapareceu. Deve ser uma nuvem. Ah, ela voltou.

            - A lua?

            - E a mulher. Ela é branca. Está nua.

            - Sim?

            - Ela chama você para a cama. Você a possui. Escureceu outra vez.

            - Outra nuvem.

            - Agora vejo… Um jardim. Sim, um jardim. Vejo jasmineiros. Vocês dois num jardim. Começa amanhecer. Vejo um pavão e um chafariz.

            - E a mulher?

            - Ela está falando. Diz uma palavra. Aldabar…

            - Aldabar. A terceira vez…

            - É o sinal. Você vai morrer.

            - Como?

            - Não sei… É confuso.

            - Insista.

            - Cuidado com corcundas e licores verdes…

 

                                                           *

 

            O homem, é claro, jamais chegou perto de Veneza de’disto. Continua vivo. Mas de vez em quando suspira e diz:

            - O que eu devo estar perdendo…”

Publicado em:  on 22 11pmFri, 14 Nov 2008 12:38:05 +0000ç2008 2008 at 12:38 pm Deixe um comentário

VOCÊ NÃO SABE…

Se você soubesse escrever com tinta vermelha

talvez fosse de todo interessante.

Seria como as nuvens que escrevem com suas formas

mensagens diversas.

Publicado em:  on 22 11pmThu, 13 Nov 2008 13:14:52 +0000ç2008 2008 at 1:14 pm Deixe um comentário

FINALMENTE

Logrei aprovação no amor

descobri o endereço da sua alma

cravei várias flechas

grudei meu desejo

comprei sua vida em suaves prestações

de respeito, dedicação e poucas querelas.

Publicado em:  on 22 11pmWed, 12 Nov 2008 15:37:40 +0000ç2008 2008 at 3:37 pm Deixe um comentário

O Homem Que Calculava

Do livro: O Homem Que Calculava de Malba Tahan

                45ª Edição – Record, 1977.

 

            Poucas horas havia que viajávamos sem interrupção, quando nos ocorreu uma aventura digna de registro, na qual meu companheiro Beremiz, com grande talento, pôs em prática as suas habilidades de exímio algebrista.

            Encontramos, perto de um antigo caravançará meio abandonado, três homens que discutiam acaloradamente ao pé de um lote de camelos.

            Por entre pragas e impropérios gritavam possessos, furiosos:

            - Não pode ser!

            - Isto é um roubo!

            - Não aceito!

            O inteligente Beremiz procurou informar-se do se tratava.

            - Somos irmãos – esclareceu o mais velho – e recebemos, como herança, esses 35 camelos. Segundo a vontade expressa de meu pai, devo receber a metade, o meu irmão Hamed Namir uma terça parte e ao Harim, o mais moço, deve tocar apenas a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma 35 camelos e a cada partilha proposta segue-se a recusa dos outros dois, pois a metade de 35 é 17 e meio. Como fazer a partilha se a terça parte e a nona parte de 35 também não são exatas?

            - É muito simples – atalhou o Homem que Calculava. – Encarrego-me de fazer, com justiça, essa divisão, se permitirem que eu junte aos 35 camelos da herança este belo animal que, em boa hora, aqui nos trouxe!

            Neste ponto procurei intervir na questão:

            Não posso consentir em semelhante loucura! Como poderíamos concluir a viagem, se ficássemos sem o camelo?

            - Não te preocupes com o resultado, ó bagdali! – replicou-me em voz baixa Beremiz. Cede-me o teu camelo e verás no fim a que conclusão quero chegar.

            Tal foi o tom de segurança com que ele falou, que não tive dúvida em entregar-lhe o meu belo jamal, que, imediatamente, foi reunido aos 35 ali presentes, para serem repartidos pelos três herdeiros.

            - Vou, meus amigos – disse ele, dirigindo-se aos três irmãos – fazer a divisão justa e exata dos camelos que são agora, como vêem, em número de 36.

            E, voltando-se para o mais velho dos irmãos, assim falou:

            - Deverias receber, meu amigo, a metade de 35, isto é, 17 e meio. Receberás a metade de 36 e, portanto, 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que saíste lucrando com esta divisão!

            E, dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:

            - E tu, Hamed Namir, deverias receber um terço de 35, isto é, 11 e pouco. Vais receber um terço de trinta e seis, isto é 12. Não poderás protestar, pois tu também saíste com visível lucro na transação.

            E disse por fim ao mais mico:

            E tu, jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu pai, deverias receber uma nona parte de 35, isto é, 3 e tanto. Vais receber uma nona parte de 36, isto é, 4. O teu lucro foi igualmente notável! Só tens a agradecer-me pelo resultado!

             E comcluiu com a maior segurança e serenidade:

            Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir – partilha em que todos três saíram lucrando – couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e 4 ao terceiro, o que dá um resultado (18+12+4) de 34 camelos.  Dos 36 camelos sobram, portanto, dois. Um pertence como sabem, ao bagdali, meu amigo e companheiro, outro toca por direito a mim, por ter resolvido, a contento de todos, o complicado problema de herança!

            - Sois inteligente, ó Estrangeiro! – exclamou o mais velho dos três irmãos. – Aceitamos a vossa partilha na certeza de que foi feita com justiça e equidade!

            E o astucioso Beremiz – o Homem que Calculava – tomou logo posse de um dos mais belos “jamales” do grupo e disse-me entregando-me pela rédea o animal que me pertencia:

            - Poderás agora, meu amigo, continuar a viagem no teu camelo manso e seguro! Tenho outro, especialmente para mim!

            E continuamos nossa jornada para Bagdá.

Publicado em:  on 22 11amTue, 11 Nov 2008 04:33:03 +0000ç2008 2008 at 4:33 am Deixe um comentário

O Analista de Bagé

Do livro: O analista de Bagé de Luis Fernando Veríssimo

                71.ª Edição – Primavera de 1982

 

“Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé. Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.

- Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira…

Mas acabou concordando.

- Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, thê. Qual é o causo?

- Bem – disse o home – é que nós tivemos um desentendimento…

- Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?

- Eu não meti a espora. Não é meu bem?

            - Não fala comigo!

            Mas essa aí tá mais nervosa que gato em dia de faxina.

            - Ela tem um problema de carência afetiva…

            - Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.

            - Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento porque ela tem procurado experiências exta-conjugais e…

            - Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?

            - Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?

            - Ela tá procurando o verdadeiro tu nos outros?

            - O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.

            - Mas isto tá ficando mais enrolado que lingüiça de venda. Te deita no pelego.

            - Eu?  

            - Ela. Tu espera na salinha.”

Publicado em:  on 22 11amMon, 10 Nov 2008 04:56:22 +0000ç2008 2008 at 4:56 am Deixe um comentário

O QUE RESTOU

Sobraram três sementes de gergelim

dois cacos de vidro

algumas gotas de perfume.

Publicado em:  on 22 11pmFri, 07 Nov 2008 20:02:07 +0000ç2008 2008 at 8:02 pm Deixe um comentário

ACHO

Acho que você me ensinou as primeiras lições de amor

escreveu cartas

tratou minhas unhas doentes

limpou minha mente de mentiras vãs

salvou-me das entranhas do mal.

Hoje me vejo com nódoas, apenas nódoas na pele do meu braço

e conservo você para sempre em meu peito.

Publicado em:  on 22 11pmThu, 06 Nov 2008 15:11:11 +0000ç2008 2008 at 3:11 pm Comentários (1)

FINAL

Sobrou apenas um monte de lixo

contendo cinzas avermelhadas

retratos rasgados.

Era tão vulnerável a redoma protetora

que o vento jogou-a à distancia.

Vieram lágrimas salgadas

vontades desfeitas

lâmpadas apagadas

fogos queimados.

De mim saiu um longo suspiro

externando minha dor.

E tudo que restou de você os garis levaram para os confins.

Publicado em:  on 22 11pmWed, 05 Nov 2008 21:52:08 +0000ç2008 2008 at 9:52 pm Deixe um comentário