MARTELO AGALOPADO

Do livro: NORDESTINADOS

          De: Marcus Accioly

                 José Olympio Editora – 1986

 

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Pois ferir o silêncio com meu canto

É ferir uma tela com o pincel,

É ferir com o lápis muito usado

A mais limpa brancura do papel.

É unir a um só tempo o canto e o pranto

De tal forma que os dois não sejam dois,

Porque o canto que seca o olhar molhado

Há de vir junto ao pranto e não depois.

E quem fere o silêncio permanente

Como um vidro no espaço transparente

Que lhe serve de forma e de janela,

Corre o risco de ver a coisa extinta,

De manchar o papel, gastar a tinta,

E perder de uma vez o tempo e a tela.

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Publicado em:  on 22 01pmSat, 31 Jan 2009 13:45:28 +0000ç2009 2008 at 1:45 pm Deixe um comentário

IMAGINAÇÃO

Aprofunda-se a melancolia

solitário vejo rastros de monstros inexistentes.

Quedo-me sombrio sem palavras de consolo.

Sou assim mesmo

assim triste

desmilinguido

seco.

Em pânico percorro ruas, avenidas imaginárias

chego cansado

e tristonho desmancho-me em mais pensamentos voláteis

e submisso a isso

adormeço

Publicado em:  on 22 01pmThu, 29 Jan 2009 20:46:35 +0000ç2009 2008 at 8:46 pm Deixe um comentário

Canudos, nós e o mundo

Do livro: Almanaque Armorial de Ariano Suassuna

               Seleção, organização e prefácio de Carlos Newton Júnior

                José Olympio Editora, 2008

 

 

            “Em Canudos, a bandeira usada pelos seguidores de Antônio Conselheiro era a do Divino Espírito Santo – a bandeira do nosso povo, pobre, negro, índio e mestiço. Povo que o Brasil oficial, o dos brancos e poderosos, mais uma vez (e como já sucedera em Palmares e no Contestado), iria esmagar e sufocar, confrontando-se ali, no caso, duas visões opostas de justiça.

            Como era de esperar, a “justiça” dos poderosos também ali cortou a cabeça do Brasil real. E os acontecimentos de canudos continuam a se repetir a cada instante. Em todos os lugares. Em todos os campos de atividade. Diariamente, incessantemente. Quando, no interior do país, uma milícia de poderosos, governamental ou não, assassina um pobre posseiro e sua família, é o Brasil dos que incendiaram e arrasaram Canudos que está atirando no Brasil real e matando seu povo. Quando, numa grande cidade, a polícia invade uma favela ou destrói uma “invasão”, são outros tantos dos nossos inumeráveis “arraiais de Canudos” pertencentes ao Brasil real que estão sendo destruídos e assolados pelo país oficial, que, para isso, consegue recrutar, a seu serviço, outros pobres integrantes do Brasil real.

            Mas temos que, ao mesmo tempo, ampliar e restringir a imagem, para que ela se torne realmente eficaz. Ampliá-la no plano internacional para dizer que, diante de países ricos e poderosos como os Estados Unidos ou a Rússia, o chamado Terceiro Mundo é um imenso arraial de Canudos, pobre e injustiçado. De modo que, quando os Estados Unidos ameaçam a Líbia, Cuba, ou o Irã; quando por si ou por seus prepostos, invadem Granada e o Panamá; quando a Rússia e a França se impõem ao Afeganistão ou ao Chad; e quando todos os grandes se juntam para invadir o Iraque – em todos estes casos são outros tantos “arraiais de Canudos” que estão sendo esmagados ou humilhados.

            Mas, para não sermos hipócritas, temos também que restringir a imagem à nossa vida pessoal, pois ou reconhecemos as nossas culpas ou nunca começaremos a virar realmente as costas ao “inferno interior” que cada um de nós carrega dentro de si. Tenhamos então a hombridade de reconhecer que, em casa, todos nós temos nossos “arraiais de Canudos” particulares – na cozinha, no jardim ou no lavador. Por isso, quando, na casa de qualquer um de nós, brasileiros brancos e privilegiados, um casal rico ou de classe média oprime e explora uma empregada doméstica negra e pobre, é o Brasil oficial que está humilhando o Brasil real e violando a dignidade de seu direito.

            Por isso, a justiça somente será verdadeira quando um dia vier a se anular essa terrível dilaceração de opostos. Ou seja, quando a justiça do país oficial, pela primeira vez em nossa atormentada História, se tornar expressão perfeita e acabada da justiça do Brasil real.   (1999)”

Publicado em:  on 22 01pmTue, 27 Jan 2009 22:32:52 +0000ç2009 2008 at 10:32 pm Deixe um comentário

A MARCA

O aroma espalhava-se no ar
querendo resumir a vida simplesmente num olor.
Marcante em momentos especiais
pleno na mente de quem sentiu.
Lembrou o arroubo quase sutil da pessoa amada
esquivando-se de um beijo sorrateiro.
Restou um sorriso amarelo
que coloriu palidamente
o rosto viril.

Publicado em:  on 22 01pmFri, 23 Jan 2009 14:45:57 +0000ç2009 2008 at 2:45 pm Deixe um comentário

rola na net

(recebida por e-mail)

INTERESSANTE !!!!!!!!!!!!!!!!

 

Antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo.

Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse.

Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os escravos simplesmente pararam e o melado desandou.

O que fazer agora?

A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor.

No dia seguinte, encontraram o melado azedo fermentado.

Não pensaram duas vezes e misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo.

Resultado: o ‘azedo’ do melado antigo era álcool que aos poucos foi evaporando e formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam constantemente.

Era a cachaça já formada que pingava.

Daí o nome ‘PINGA’.

Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores ardia muito, por isso deram o nome de ‘ÁGUA-ARDENTE’ .

Caindo em seus rostos escorrendo até a boca, os escravos perceberam que, com a tal goteira, ficavam alegres e com vontade de dançar.

E sempre que queriam ficar alegres repetiam o processo.

(História contada no Museu do Homem do Nordeste ).

Não basta beber, tem que conhecer !!!

Publicado em:  on 22 01pmWed, 21 Jan 2009 21:09:10 +0000ç2009 2008 at 9:09 pm Deixe um comentário

DANUZA LEÃO

Publicado na Folha de São Paulo

  

“Paz na terra entre os homens

Foi um momento raro, em que todos foram ricos porque o arco-íris não era de ninguém, era de todos.

 

 

 

EXISTEM situações e fatos que aproximam ou afastam as pessoas. Das que afastam, uma das mais clássicas é a morte de um ente querido, sobretudo quando há uma herança a ser dividida.

Supondo que sejam três herdeiros, e que os bens sejam difíceis de dividir, tipo: um terreno em Cabo Frio, um apartamento valendo uns R$ 300 mil, um outro em torno de R$ 55 mil -se achar comprador- mais um sítio avaliado entre R$ 60 mil e R$ 180 mil -com propriedades rurais, nunca se sabe. O normal é que tudo seja vendido e o que for apurado dividido por três -e é aí que começa a briga.

Se um dos herdeiros estiver precisando muito de dinheiro, vai querer que tudo seja vendido por qualquer preço, para botar a mão no que é dele, e rapidinho. Mas o outro, que está bem de vida, não tem pressa, e se faz o tipo homem de negócios, vai querer vender só depois da crise, para que os imóveis se valorizem. Aí, já viu.

Outro fato que faz com que duas amigas que se adoravam se afastem é quando uma delas arranja um namorado. Ficar sozinha, enfrentar o fim de semana sem nada para fazer, enquanto a outra está passando o dela muito bem acompanhada, debaixo de um bom edredom, é impossível de suportar. E quando isso acontece entre uma amiga e um amigo, pior ainda. Era tão bom quando os dois passavam noites inteiras tomando um vinhozinho e desfilando teorias do tipo “depois dos 40 a gente fica mais seletivo, por isso é que não se encontra ninguém” -e por aí vai.

Em compensação, existem as circunstâncias que aproximam as pessoas. A luta política, por exemplo, ou melhor ainda: uma revolução. Nessa hora as almas ficam mais solidárias, mais generosas -e os corpos também-, e se encontram com maior facilidade. Bem maior, aliás, do que num barco fazendo um cruzeiro pela Grécia. Mas é bom deixar claro: só enquanto estiverem do lado que está perdendo. Se a situação virar e o grupo político que estava pronto para matar ou morrer pela justiça social for vitorioso, começa a luta pelo poder.

Uma situação que também faz com que as pessoas confraternizem calorosamente é a noite do Réveillon. Às 11 e meia os corações começam a se aquecer, e à meia-noite você pode estar dando um beijo no dono da barraquinha de coco e desejando, a ele e ao mundo, um feliz Ano-Novo com toda a sinceridade do mundo. São bons momentos, esses, mas que só acontecem uma vez por ano, com data e hora marcadas. Mas uma vez eu presenciei um instante mágico, totalmente inesperado, que uniu todos os que estavam por perto.

Eram 5h30 da tarde, e de repente surgiu no céu um arco-íris completo, perfeito, lindo; um arco-íris como nunca ninguém viu na vida um tão bonito. Nas ruas, as pessoas mais humildes se dirigiam às mulheres mais elegantes, as mulheres mais elegantes aos camelôs, os camelôs aos corretores da Bolsa, os corretores da Bolsa aos contínuos, todos sorrindo felizes, e apontando: “Você viu o arco-íris?”

Foi um momento raro, em que todos foram ricos porque o arco-íris não era de ninguém, era de todos.

E por alguns minutos se sentiu o que é a verdadeira igualdade e fraternidade entre os homens.”

Publicado em:  on 22 01pmTue, 20 Jan 2009 15:31:45 +0000ç2009 2008 at 3:31 pm Deixe um comentário

UM RARO MOMENTO

Há um certo ar de alegria no meu corpo

minhas mãos estão mais limpas

os dedos abertos e receptivos

minha língua é toda silencio

meus olhos brilham diferentes

vêem mais, mais além

meus pés descansam livres dos chinelos

e do peso do corpo

veneram meu ser em volúpias obscenas

o perfume que me rodeia

é cor da poeira do campo.

De que preciso mais?

Nada, absolutamente nada.

Publicado em:  on 22 01amSun, 18 Jan 2009 03:36:57 +0000ç2009 2008 at 3:36 am Deixe um comentário

rola na net

Motel ……

Muito engraçado…

Mirtes não se agüentou e contou para a Lurdes:

-Viram teu marido entrando num motel.

A Lurdes abriu a boca e arregalou os olhos. Ficou assim, uma estátua de espanto,durante um minuto, um minuto e meio. Depois pediu detalhes.

- Quando? Onde? Com quem?

- Ontem. No Discretíssimu’s.

- Com quem? Com quem?

- Isso eu não sei.

- Mas como? Era alta? Magra? Loira? Puxava de uma perna?

- Não sei Lu.

- Carlos Alberto me paga. Ah, me paga.

Quando o Carlos Alberto chegou em casa a Lurdes anunciou que iria deixá-lo e contou por quê.

- Mas que história é essa, Lurdes? Você sabe quem era a mulher que estava comigo no motel. Era você!

- Pois é. Maldita hora em que eu aceitei ir.

- Discretíssimu’ s! Toda a cidade ficou sabendo. Ainda bem que não me identificaram.

- Pois então?

- Pois então, que eu tenho que deixar você. Não vê? É o que todas as minhas amigas esperam que eu faça. Não sou mulher de ser enganada pelo marido e não reagir.

- Mas você não foi enganada. Quem estava comigo era você!

- Mas elas não sabem disso!

- Eu não acredito Lurdes! Você vai desmanchar nosso casamento por isso? Por uma convenção?

 - Vou!

- Mais tarde, quando a Lurdes estava saindo de casa, com as malas, o Carlos Alberto a interceptou. Estava sombrio:

 - Acabo de receber um telefonema – disse. – Era o Dico.

- O que ele queria?

- Fez mil rodeios, mas acabou me contando. Disse que, como meu amigo, tinha que contar.

- O quê?

- Você foi vista saindo do motel Discretíssimu’s ontem, com um homem.

- O homem era você!

- Eu sei, mas eu não fui identificado.

- Você não disse que era você?

- O que? Para que os meus amigos pensem que eu vou a motel com a minha própria mulher?

- E então?

- Desculpe, Lurdes, mas…

- Mas o quê???

- Vou ter que te dar uma surra…

(Luiz Fernando Veríssimo)

MORAL DA HISTÓRIA :

DEVEMOS CUIDAR APENAS DA NOSSA SAÚDE, POIS DA NOSSA VIDA, TODO MUNDO CUIDA…

Publicado em:  on 22 01pmFri, 16 Jan 2009 16:44:25 +0000ç2009 2008 at 4:44 pm Deixe um comentário

Mais CAMPOS DE CARVALHO

Do livro: Cartas de viagem e outras crônicas

          De: Campos de Carvalho

          Organização Cláudio Figueiredo. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

 

 

            Vocês já devem ter ouvido falar no Inconsciente Coletivo. Eu já ouvi uma vez na esquina da Ouvidor com Gonçalves Dias: me lembro de que chovia.

Para mim o Inconsciente Coletivo sempre foi outra coisa, é simplesmente um ideal inatingível: todo mundo agindo inconscientemente como se estivesse em pleno carnaval, sem dar a mínima para o imposto de renda ou o câncer e levando a vida no flauteado, como Pã na floresta, no tempo em que ainda havia florestas. O executivo com a sua pasta seria um maluco nesse mundo visto de cabeça para baixo, como já o é mesmo visto de cabeça para cima – e os relógios andariam da direita para a esquerda só para chatear, sem outro objetivo que o de chatear, quem quisesse saber das horas que fosse perguntar ao bispo. Freud não entraria na jogada, nem ele nem nenhum outro criador de sistema nenhum; já o sujeito pensar num sistema mostra que é um sistemático (o que não quer dizer que quem pensa em asma seja forçosamente um asmático) e deve-se sempre fugir de qualquer tipo de sistema, sobretudo deste de querer fugir de qualquer sistema.

A deusa Razão inventada pela Revolução Francesa deu no que deu, ou melhor, deu o que deu – e o negócio é apelar para a não-Razão, que pelo menos nos hospícios tem dado ótimos resultados e só de Jesus Cristo já deu mais de cem mil. (É verdade quem também tem dado Napoleões Bonapartes, mas não se pode exigir nada perfeito neste mundo.) Só é doido quem não é, li outro dia no jornal, e o autor da frase só podia estar maluquinho da silva, que nunca vi frase tão sábia em toda a minha vida. Deve estar em alguma camisa-de-força a esta hora, a qual só lhe pode dar ainda mais força. Só É DOIDO QUEM NÃO É: meu Deus, fazei com que eu acredite piamente nesta verdade de cristal, e dai-me sobretudo forças para seguí-la à risca, pelo menos até a morte.

Mas o inconsciente coletivo é uma utopia, como tudo que é coletivo, gregário, grupal, feito pela ou para a multidão, pois até prova em contrário não somos abelhas ou térmitas, infelizmente para nós, é bom que se acrescente. Estou falando do inconsciente coletivo tal qual como o entendo e disse acima, por sinal que da maneira mais lógica e consciente possível, o que já demonstra a sua utopia. Louco se é sozinho, e mesmo numa casa de loucos cada um está sozinho no seu canto com a sua loucura: It is impossible that tigers mate, já dizia o poeta, e a verdade é que os tigres não costumam mesmo andar juntos. Nem os tigres nem os sábios, acrescente eu: até hoje ninguém ouviu falar de invenção nenhuma feita por um agrupamento ou uma multidão de pessoas, só se descobre em grupo ou em multidão aquilo que é óbvio. A vida é a sós – e, o que é pior, também a morte.

Publicado em:  on 22 01pmThu, 15 Jan 2009 14:37:25 +0000ç2009 2008 at 2:37 pm Deixe um comentário

UM SONHO

 

Hoje o dia amanheceu sonolento

espreguiçou-se e depois mostrou seu olho luminoso

qual mestre virou sorrateiro e plantou um aviso:

Saiam todos, andem pelas ruas, praças e arvoredos

percorram as matas.

Mesmo assim dei uma pausa na minha intenção

clamei por justiça

galguei escadarias

gritei gritos estridentes

passei a língua nos dentes

e não conclui nada.

E sem poder desenvolver um projeto exeqüível

olhei para uma montanha distante e azulada

e deixei que meu sonho para lá se dirigisse

e se misturasse àquela cor

e distante permanecesse

para que eu pudesse continuar sonhando.

Publicado em:  on 22 01pmWed, 14 Jan 2009 16:12:32 +0000ç2009 2008 at 4:12 pm Deixe um comentário