Mais CAMPOS DE CARVALHO

Do livro: Cartas de viagem e outras crônicas

          De: Campos de Carvalho

          Organização Cláudio Figueiredo. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

 

 

            Vocês já devem ter ouvido falar no Inconsciente Coletivo. Eu já ouvi uma vez na esquina da Ouvidor com Gonçalves Dias: me lembro de que chovia.

Para mim o Inconsciente Coletivo sempre foi outra coisa, é simplesmente um ideal inatingível: todo mundo agindo inconscientemente como se estivesse em pleno carnaval, sem dar a mínima para o imposto de renda ou o câncer e levando a vida no flauteado, como Pã na floresta, no tempo em que ainda havia florestas. O executivo com a sua pasta seria um maluco nesse mundo visto de cabeça para baixo, como já o é mesmo visto de cabeça para cima – e os relógios andariam da direita para a esquerda só para chatear, sem outro objetivo que o de chatear, quem quisesse saber das horas que fosse perguntar ao bispo. Freud não entraria na jogada, nem ele nem nenhum outro criador de sistema nenhum; já o sujeito pensar num sistema mostra que é um sistemático (o que não quer dizer que quem pensa em asma seja forçosamente um asmático) e deve-se sempre fugir de qualquer tipo de sistema, sobretudo deste de querer fugir de qualquer sistema.

A deusa Razão inventada pela Revolução Francesa deu no que deu, ou melhor, deu o que deu – e o negócio é apelar para a não-Razão, que pelo menos nos hospícios tem dado ótimos resultados e só de Jesus Cristo já deu mais de cem mil. (É verdade quem também tem dado Napoleões Bonapartes, mas não se pode exigir nada perfeito neste mundo.) Só é doido quem não é, li outro dia no jornal, e o autor da frase só podia estar maluquinho da silva, que nunca vi frase tão sábia em toda a minha vida. Deve estar em alguma camisa-de-força a esta hora, a qual só lhe pode dar ainda mais força. Só É DOIDO QUEM NÃO É: meu Deus, fazei com que eu acredite piamente nesta verdade de cristal, e dai-me sobretudo forças para seguí-la à risca, pelo menos até a morte.

Mas o inconsciente coletivo é uma utopia, como tudo que é coletivo, gregário, grupal, feito pela ou para a multidão, pois até prova em contrário não somos abelhas ou térmitas, infelizmente para nós, é bom que se acrescente. Estou falando do inconsciente coletivo tal qual como o entendo e disse acima, por sinal que da maneira mais lógica e consciente possível, o que já demonstra a sua utopia. Louco se é sozinho, e mesmo numa casa de loucos cada um está sozinho no seu canto com a sua loucura: It is impossible that tigers mate, já dizia o poeta, e a verdade é que os tigres não costumam mesmo andar juntos. Nem os tigres nem os sábios, acrescente eu: até hoje ninguém ouviu falar de invenção nenhuma feita por um agrupamento ou uma multidão de pessoas, só se descobre em grupo ou em multidão aquilo que é óbvio. A vida é a sós – e, o que é pior, também a morte.

Publicado em:  on 22 01pmThu, 15 Jan 2009 14:37:25 +0000ç2009 2008 at 2:37 pm Deixe um comentário

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