O gol

Do livro: FUTEBOL AO SOL E À SOMBRA

               De Eduardo Galeano

               L&PM Editores; 3. ed.

   Tradução de Eric Nepomuceno e Maria do Carmo Brito

 

 

            O gol é o orgasmo do futebol. E, como o orgasmo, o gol é cada vez menos freqüente na vida moderna.

            Há meio século, era raro que uma partida terminasse sem gols: 0 a 0, duas bocas abertas, dois bocejos. Agora, os onze jogadores passam toda a partida pendurados na trave, dedicados a evitar os gols e sem tempo para fazer nenhum.

            O entusiasmo que se desencadeia cada vez que a bola sacode a rede pode parecer mistério ou loucura, mas é preciso levar em conta que o milagre é raro. O gol, mesmo que seja um golzinho, é sempre goooooooooooooool na garganta dos locutores de rádio, um dó de peito capaz de deixar Caruso mudo para sempre, e a multidão delira e o estádio se esquece que é de cimento, se solta da terra e vai para o espaço.

Publicado em:  on 22 01pmTue, 13 Jan 2009 13:34:04 +0000ç2009 2008 at 1:34 pm Deixe um comentário

CAMPOS DE CARVALHO

Do livro: Cartas de viagem e outras crônicas

          De: Campos de Carvalho

          Organização Cláudio Figueiredo. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

 

 

 

“Sou um crápula. A mulher grávida de muitos meses carregando a enorme trouxa de roupa na cabeça, pobre a mais não poder e com um menino ao lado também equilibrando o seu volume. Chove e no chão escorregadio o menino deixa cair o seu embrulho, a mãe grita desesperada e desfere violenta bofetada no rosto do menino, que cai e começa a chorar. É dia de Natal, a mãe paupérrima e vesga está no último mês de gravidez, a roupa ali na lama põe a perder todo o trabalho de uma semana: eu tomo o partido do menino, grito como um possesso contra a espantada mulher, a senhora não pode bater assim no menino, isto é uma covardia, a mulher depois do espanto responde com a barriga enorme que todo o seu trabalho ficou ali perdido na lama, a grande trouxa ainda equilibrada na cabeça, o menino caído e chorando, eu então minto que vou chamar a polícia, pode chamar a polícia que o senhor quiser, o senhor e a sua polícia eu queria era ver no meu lugar com essa roupa no chão, vida mais desgraçada.

 

Sou um crápula. O que não disse à mulher digo-o agora de público, bem alto e de maneira que não haja dúvida nem de minha parte nem de ninguém: sou um crápula e de crápula devo ser chamado, que me apontem na rua como um crápula vesgo e obeso, a barriga deste tamanho: lá vai aquele crápula, chuva nenhuma limpará esse tipo imundo, a ele e aos seus sapatos, e aos seus óculos dourados metidos a besta, que não enxergam nem um palmo diante do nariz. Um crápula perfeito.

 

            Chamar a polícia – logo a polícia! Eu deveria chamar mas era Deus para ver aquilo: veja Vossa Sumidade se isto é necessário, e mais aqueles meninos notívagos de Petrópolis que eu chamei de pivetes e para os quais igualmente clamei pela polícia: Aqui del Rey! Vossa Sumidade, que fez tão bem os astros e as galáxias, que põe em cada detalhe uma precisão de relojoeiro e uma sabedoria infinita – permitir uma coisa destas! E onde estão vossos famosos milagres que não fazem voltar tudo ao estado d’antes, sem roupa nenhuma no chão e sem nenhuma bofetada estalando no rosto do menino, e sem nenhum crápula na rua berrando os seus impropérios? Hoje é dia de Natal, na pior das hipóteses um dia consagrado à vossa louvação e em que os homens fingem lembrar-se de que são humanos e  até as guerras fazem trégua para comemorar a salvação do mundo. Vossa Sumidade veja este menino e sobretudo veja essa mãe com esse outro menino na barriga pobre, essa mãe vesga e tão desamparada sob a chuva que não pára nunca, tudo tão triste e tão sem sentido para um dia que dizem de tanta alegria, um dia na verdade igual aos outros e tão terrível, veja Vossa Sumidade, como qualquer outro. Se há um culpado nisso tudo, mais do que eu, Vossa Sumidade saberá apontá-lo ou apontar-se com a maior honestidade – antes que chegue a polícia e comece a investigar o ininvestigável, lápis e papel na mão como se tratasse de uma reportagem a mais para algum colorido jornal de amanhã. Continuar assim como está, há milhares e milhões de anos, isto não é possível.

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            Ao por os pés no chão cada manhã deveríamos pensar: estou realizando o ato mais importante que um homem pode realizar fora de sua cama e de si mesmo, que é o de pisar o mundo, em conseqüência carregá-lo às costas, sentir-lhe todas as alegrias e tristezas humanamente e não como um robô ensinado por seus pais e avós também robôs. Estou pisando o mundo e só eu posso na minha fragilidade e em meio a tanto espelho e a tanta porta descobrir o que é certo e o que não é, qual o caminho que leva ao mar como acontece às tartarugas recém-nascidas e quais os caminhos que não levam a lugar nenhum e de onde nos espreita, com suas mil faces, o anjo da morte. Só eu posso na minha cegueira guiar-me com as luzes profundas da intuição, aquele fiapo de luz entrevisto no fim do imenso túnel e ao qual me agarrarei como afogado à ponta de uma corda: uma possibilidade em mil de salvar-me, de acertar com o meu caminho, mas sempre uma razão de viver e de ainda continuar vivo, lado a lado com os milhões de espermatozóides que tentam comigo a grande aventura. Um crápula muitas vezes perplexo no seu (alheio) labirinto, dando murros no ar e imprecando nas trevas – mas o mesmíssimo ser capaz de amanhã escrever um Invenção de Orfeu ou beijar qual Francisco de Assis todos os leprosos do caminho, levado pelos ventos do gênio ou da santidade, o olhar perdido no horizonte enfim achado, finalmente em paz com sua consciência e pronto para morrer para o mundo e depois morrer.”    

Publicado em:  on 22 01pmMon, 12 Jan 2009 15:40:15 +0000ç2009 2008 at 3:40 pm Comentários (1)

O Futebol

Do livro: FUTEBOL AO SOL E À SOMBRA

               De Eduardo Galeano

               L&PM Editores; 3. ed.

   Tradução de Eric Nepomuceno e Maria do Carmo Brito

 

            “A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever. Ao mesmo tempo em que o esporte se tornou indústria, foi desterrando a beleza que nasce da alegria de jogar só pelo prazer de jogar. Neste mundo do fim de século, o futebol profissional condena o que é inútil, e é inútil o que não é rentável. Ninguém ganha nada com essa loucura que faz com que o homem seja menino por um momento, jogando como o menino que brinca com o balão de gás e como o gato brinca com o novelo de lã: bailarino que dança com uma bola leve como o balão que sobe ao ar e o novelo que roda, jogando sem saber que joga, sem motivo, sem relógio e sem juiz.

            O jogo se transformou em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo, que não é organizado para ser jogado, mas para impedir que se jogue. A tecnocracia do esporte profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria, atrofia a fantasia e proíbe ousadia.

            Por sorte ainda aparece nos campos, embora muito de vez em quando, algum atrevido que sai do roteiro e comete o disparate de driblar o time adversário inteirinho, além do juiz e do público das arquibancadas, pelo puro prazer do corpo que se lança na proibida aventura da liberdade.”

Publicado em:  on 22 01pmSun, 11 Jan 2009 17:08:37 +0000ç2009 2008 at 5:08 pm Deixe um comentário

A VIDA TEM DESSAS

Sobrei na curva do caminho

Afrontei o destino com minha ironia descontrolada

Em troca nada recebi

a não ser uma corrente de vento frio

que atravessou meus ossos numa demonstração de descontentamento.

Publicado em:  on 22 01pmThu, 08 Jan 2009 16:42:00 +0000ç2009 2008 at 4:42 pm Deixe um comentário

O FIM

A natureza aberta deixa transparecer uma réstia de luz

Ao final uma surpresa

Recôndita sem atavismo está emoldurada no fim do corredor

aconteceu sem mais nem menos

numa diáspora intermitente

estando de sobreaviso em carta num embrulho de pão

sobriamente fez-se um escárnio

fecundando desilusões

lamentando horrores

desmanchando o caminho

envelopando num surrão surrado

as últimas farpas de um amor vencido.

Publicado em:  on 22 01pmWed, 07 Jan 2009 21:09:28 +0000ç2009 2008 at 9:09 pm Deixe um comentário

IMPRESSÃO

Ela veio sorridente

com seu corpo esbelto

e perturbou minha alma

nem me notou

deixou-me apocalíptico.

Queixo-me da atmosfera

tranco-me no quarto escuro

povôo a imaginação sem qualquer atropelo

e desabo em prantos.

Mesmo assim meu pensamento sangra

numa hemorragia permanente.

Publicado em:  on 22 01pmTue, 06 Jan 2009 22:31:06 +0000ç2009 2008 at 10:31 pm Deixe um comentário

ROMPIMENTO SEM LÓGICA

Rompeu o ano

Cairam as máscaras

Seres surpreendentes

Canalhas entre muralhas

Esperanças produzidas

Visão distorcida

Alegria incontida

Suor abundante

Sono revigorante

Recomeço de que?

Publicado em:  on 22 01pmThu, 01 Jan 2009 15:12:04 +0000ç2009 2008 at 3:12 pm Deixe um comentário