Do livro: Cartas de viagem e outras crônicas
De: Campos de Carvalho
Organização Cláudio Figueiredo. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.
“Sou um crápula. A mulher grávida de muitos meses carregando a enorme trouxa de roupa na cabeça, pobre a mais não poder e com um menino ao lado também equilibrando o seu volume. Chove e no chão escorregadio o menino deixa cair o seu embrulho, a mãe grita desesperada e desfere violenta bofetada no rosto do menino, que cai e começa a chorar. É dia de Natal, a mãe paupérrima e vesga está no último mês de gravidez, a roupa ali na lama põe a perder todo o trabalho de uma semana: eu tomo o partido do menino, grito como um possesso contra a espantada mulher, a senhora não pode bater assim no menino, isto é uma covardia, a mulher depois do espanto responde com a barriga enorme que todo o seu trabalho ficou ali perdido na lama, a grande trouxa ainda equilibrada na cabeça, o menino caído e chorando, eu então minto que vou chamar a polícia, pode chamar a polícia que o senhor quiser, o senhor e a sua polícia eu queria era ver no meu lugar com essa roupa no chão, vida mais desgraçada.
Sou um crápula. O que não disse à mulher digo-o agora de público, bem alto e de maneira que não haja dúvida nem de minha parte nem de ninguém: sou um crápula e de crápula devo ser chamado, que me apontem na rua como um crápula vesgo e obeso, a barriga deste tamanho: lá vai aquele crápula, chuva nenhuma limpará esse tipo imundo, a ele e aos seus sapatos, e aos seus óculos dourados metidos a besta, que não enxergam nem um palmo diante do nariz. Um crápula perfeito.
Chamar a polícia – logo a polícia! Eu deveria chamar mas era Deus para ver aquilo: veja Vossa Sumidade se isto é necessário, e mais aqueles meninos notívagos de Petrópolis que eu chamei de pivetes e para os quais igualmente clamei pela polícia: Aqui del Rey! Vossa Sumidade, que fez tão bem os astros e as galáxias, que põe em cada detalhe uma precisão de relojoeiro e uma sabedoria infinita – permitir uma coisa destas! E onde estão vossos famosos milagres que não fazem voltar tudo ao estado d’antes, sem roupa nenhuma no chão e sem nenhuma bofetada estalando no rosto do menino, e sem nenhum crápula na rua berrando os seus impropérios? Hoje é dia de Natal, na pior das hipóteses um dia consagrado à vossa louvação e em que os homens fingem lembrar-se de que são humanos e até as guerras fazem trégua para comemorar a salvação do mundo. Vossa Sumidade veja este menino e sobretudo veja essa mãe com esse outro menino na barriga pobre, essa mãe vesga e tão desamparada sob a chuva que não pára nunca, tudo tão triste e tão sem sentido para um dia que dizem de tanta alegria, um dia na verdade igual aos outros e tão terrível, veja Vossa Sumidade, como qualquer outro. Se há um culpado nisso tudo, mais do que eu, Vossa Sumidade saberá apontá-lo ou apontar-se com a maior honestidade – antes que chegue a polícia e comece a investigar o ininvestigável, lápis e papel na mão como se tratasse de uma reportagem a mais para algum colorido jornal de amanhã. Continuar assim como está, há milhares e milhões de anos, isto não é possível.
……………………………………………………………………………………………………………………………
Ao por os pés no chão cada manhã deveríamos pensar: estou realizando o ato mais importante que um homem pode realizar fora de sua cama e de si mesmo, que é o de pisar o mundo, em conseqüência carregá-lo às costas, sentir-lhe todas as alegrias e tristezas humanamente e não como um robô ensinado por seus pais e avós também robôs. Estou pisando o mundo e só eu posso na minha fragilidade e em meio a tanto espelho e a tanta porta descobrir o que é certo e o que não é, qual o caminho que leva ao mar como acontece às tartarugas recém-nascidas e quais os caminhos que não levam a lugar nenhum e de onde nos espreita, com suas mil faces, o anjo da morte. Só eu posso na minha cegueira guiar-me com as luzes profundas da intuição, aquele fiapo de luz entrevisto no fim do imenso túnel e ao qual me agarrarei como afogado à ponta de uma corda: uma possibilidade em mil de salvar-me, de acertar com o meu caminho, mas sempre uma razão de viver e de ainda continuar vivo, lado a lado com os milhões de espermatozóides que tentam comigo a grande aventura. Um crápula muitas vezes perplexo no seu (alheio) labirinto, dando murros no ar e imprecando nas trevas – mas o mesmíssimo ser capaz de amanhã escrever um Invenção de Orfeu ou beijar qual Francisco de Assis todos os leprosos do caminho, levado pelos ventos do gênio ou da santidade, o olhar perdido no horizonte enfim achado, finalmente em paz com sua consciência e pronto para morrer para o mundo e depois morrer.”