Do Livro: NORDESTINADOS
De: Marcus Accioly
José Olympio Editora
3ª edição
- Senhores, vou lhes contar
Uma conversa ligeira
Que tive, faz muito tempo,
Num dia de quarta-feira
Do mês de outubro de um ano,
Do qual não me lembro a data,
Na mais agreste caatinga,
Depois da zona da Mata.
Havia fome na terra
E o povo se retirava
Levando os últimos bichos
Que a seca aos poucos matava.
Para esquecer essas coisas
Fui palestrar com Quintão,
Um cego que tinha fama
De sábio, em todo sertão.
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- O homem, dentro da vida,
Tem que escolher uma estrada,
Embora o fim seja o mesmo
Pois tudo termina em nada.
Seja qual for a escolha
Que o viajante pretenda,
O fim de todo caminho
Dá sempre na mesma venda.
Nascendo numa cocheira
Ou, como os ricos, num berço,
Seja qual for seu destino
Acerta o mesmo endereço.
Ande sem pressa ou ligeiro,
A trote-baixo ou galope,
Sempre há de entrar na saída,
E às vezes sem envelope.
- No fim de tudo há um fim
Contrário a todo começo,
E seja qual for a vida
A morte é o mesmo endereço.
Daí se torna mais fácil
Chegar a tal conclusão:
A vida é qualquer estrada
E no fim dela há um não.
Só não concordo, decerto,
Com esse modo de ver,
Pois toda estrada depende
Daquele que a escolher.
E seja qual for o rumo,
Seu moço, falo por mim,
Em vez do não que se espera
No fim da vida há um sim.
- Cego Quintão, não discordo
Do seu prosar, mas lhe digo:
Se para o morto há descanso
Quero o cansaço comigo,
Pois coisa que nunca entra
Na minha imaginação
É como a alma se livra
Dos sete-palmos de chão.
Não falo por zombaria
Como costumam falar,
Sou crente em Deus, mas de morte
Algo me faz duvidar,
Porque aquilo que dizem
Ser o começo ou o sim,
É bem mais o fim que começo
Ou o começo do fim.
- E para mim, que sou cego,
A morte me assustaria?
Se a vida fosse só isso
De nada ou pouco valia.
Não que eu pretenda, seu moço,
Achá-lo em contradição,
Mas seu olhar se limita
Onde é preciso visão.
Pois para ver a verdade
É necessário enxergar
Além das coisas terrenas
Que são mais fáceis de olhar.
É necessário ir mais longe
Do que os outros, que até
Um cego, como eu, de guia,
Vê com os olhos de fé.
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