Do livro: Cartas de viagem e outras crônicas
De: Campos de Carvalho
Organização Cláudio Figueiredo. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.
“Orgulho-me de ter feito o serviço militar três vezes, isto é, de ter sido obrigado a fazê-lo três anos seguidos. Das duas primeiras vezes, xinguei a mãe do sargento, da última, aprendi a xingá-la para dentro. A verdade é que já nasci antibelicista e nenhum exército do mundo me faria empunhar um fuzil por mais de cinco minutos.
Correm as mais estranhas notícias a meu respeito, e se eu fosse acreditar nelas jamais teria coragem de dormir comigo. Se sou lobisomem é à maneira de todo mundo: homo homini lupus, e quem me vê de óculos até pensa que sou um respeitado professor de qualquer coisa. Agora: entre ser professor de qualquer coisa ou ser lobisomem, é claro que prefiro este último.
Escrevo porque não posso deixar de escrever, e é bom que se convençam disso os censores e ditadores de qualquer tipo ou nacionalidade. Escrevo e rasgo, escrevo e rasgo, numa autocensura que não tem nada a ver com a burrice alheia. Tenho uma facilidade enorme de escrever e por isso mesmo é que tenho tão poucos livros publicados. Não há nada pior, para qualquer artista, do que a facilidade: ainda chego a preferir a mulher fácil. E já que falo em Arte, devo confessar que é a coisa mais bela e importante deste mundo, e muito mais terrível do que o câncer.
Deus e eu não nos entendemos desde que completei 15 anos: simplesmente rompemos relações. Também a última coisa que eu admitiria ser era Deus, nem que fosse por um dia apenas. Sinto-me muito bem sem a idéia de Deus; ou, melhor, sinto-me muito mal, mas pelo menos não fico devendo meu infortúnio a ninguém. Sou o tipo do sef-made man: não aceito a ingerência de nenhum deus e de nenhum demônio.
Em matéria de amor sou absolutista: amo perdidamente a mesma criatura a vida inteira, e o mais espantoso é que me casei com ela. Há quem me julgue por isso um sujeito sem imaginação, mas a verdade é que se babam de inveja.
Sou um bicho do mato, mas já nasci assim e não saberia ser de outro jeito. Às vezes chego a pensar que sou um tigre, mas logo me recolho à minha insignificância de gato. Selvagem, mas gato.
Se ninguém ainda disse esta frase: “Mais de um é multidão”, fico sendo o autor dela. Isto não exclui o amor eterno, muito pelo contrário; é apenas uma variante do que já diz a sabedoria popular: dois é bom, três é demais.
Não sou um animal político, para espanto de muita gente. Em compensação eu me escandalizo justamente com a sua politização, que é como eles chamam a sua mania de catequizar e sobretudo de se deixar catequizar.
Que a humanidade fracassou, basta abrir os jornais do dia. Só na seção necrológica ainda se encontra um pouco de paz. Mas, pensando bem, até que não houve fracasso nenhum: o Homem foi mesmo feito à imagem e semelhança de Deus.
Um conselho aos jovens? Pois que não fiquem velhos nunca.
Nasci à margem do Parapaendi, num dia em que minha mãe desceu do carro de boi para satisfazer uma necessidade fisiológica e a satisfez. Assim, de cara, aprendi que este mundo não passa mesmo é de uma grande m… Eu disse de cara.
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Minha mulher lembrou-me entre um busca-pé e outro que eu já estava bastante velho para continuar sendo uma criança, e mostrou-me no mapa-múndi onde estava situado o Parapaendi, do tamanho de uma josta de mosquito. Eu, que nunca havia sequer pensado nisso, tomei-me repentinamente de nojo pela política mundial e comprei logo um televisor a cores, último modelo, para pelo menos ter todo o Universo dentro de casa e imbecilizar-me de uma vez.
Hoje, graças a Deus e à televisão, mal consigo lembrar-me do meu nome e da josta de mosquito em que vivo (presumo que seja josta de abelha) e participo de todos os programas que distribuem geladeiras, automóveis, batedeiras elétricas, viagens à Austrália e garrafas-brinde de Coca-Cola. Minha mulher passa as tardes e as madrugadas vendo Humphrey Bogart, Errol Flinn, Cary Grant e Jean Gabin, quando não o próprio Rodolfo Valentino, e com isso a nossa vida conjugal voltou à estaca zero vírgula zero zero, que é o ideal para qualquer vida conjugal que se preze.”
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