Do livro: Cartas de viagem e outras crônicas
De: Campos de Carvalho
Organização Cláudio Figueiredo. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.
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“Uma vez eu estava num restaurante em São Paulo na companhia de alguns e algumas jovens (meus leitores, evidentemente) quando, lá pelas tantas, resolveram eles me provocar dizendo que eu não tinha coragem de agir de acordo com o que punha nos livros, e que no fundo eu não passava mesmo era de um burguês e um conformista igual aos outros. O restaurante estava à cunha (mas que expressão!) e os meninos desafiaram a ir até o meio do salão e lá me pôr de cabeça para baixo, isto é, plantando bananeira – no momento exato em que a orquestra atacava um tango argentino.
Para quem jamais enfrentou todos os horrores de uma guerra, como eu, aquilo era uma sopa – e lá me fui todo impávido plantar a minha bananeira no meio de toda aquela gente estarrecida: e, quando vi, estava sendo calorosamente aplaudido por todos os lados, numa ovação unânime e espontânea.
Dizem que o sujeito só está realizado depois que escreve um livro, planta uma árvore e tem um filho. No meu caso, depois dessa bananeira histórica, só me falta mesmo fazer um filho: e olha que eu tenho feito um esforço que só eu sei, às vezes um tanto displicente mas nem por isso menos penetrante e profundo – e repetindo sempre, e repetindo, o que comprova de minha parte um caráter rijo e indobrável, bem digno aliás de um Carvalho.
Passado o investimento em Jesus Cristo, que rendeu ótimos dividendos (que o digam o Roberto mais o Erasmo, e todos os que fizeram seu cristianismozinho particular no mundo inteiro: menos o coitado do Vaticano, que não soube tirar partido nenhum da onda) – e passado que está esse satanismo de araque que fez lavar a égua tudo quanto era mago e macumbeiro do terceiro time –, parece que finalmente chegou a vez de se pensar um pouco no Homem e de elevá-lo a uma condição pelo menos humana.
Ainda outro dia eu aqui falava do Infra-Homem e do Super-homem: este último pertencente à ficção científica e à historia em quadrinhos, e aquele a maior vergonha de uma humanidade que paga 18 mil cruzeiros por um jantar tête-à-tête numa boate e gasta fábula para ir à lua catar pedrinha em vez de combater a fome e a miséria no mundo. Sei que ainda há pouco houve por aí uma campanha no sentido de se investir no Homem, mas quem acabou mesmo investindo como sempre foram as mulheres (grande novidade), os assaltantes, os motoristas de praça e os outros motoristas, os cachorros, os candidatos em vésperas de eleição, os mendigos, os loucos, as macacas de auditório, os touros nas touradas, os punguistas, os credores, os ciclistas e motociclistas, as pulgas, os percevejos, os pernilongos, o tigre, o leão, a onça, o leopardo, o rinoceronte – e sobretudo o veado.
Não sou exatamente o que se pode chamar de um perfeito otimista – sobretudo quando se trata da bondade humana – mas penso que, depois de Cristo e do Diabo, nunca é demais esperar que o homem se volte finalmente para si mesmo e se descubra qualidades até aqui insuspeitadas, capazes de fazê-lo amar ao próximo já não digo como a si mesmo, mas pelo menos como à mulher do vizinho, ou à cunhada, ou à secretária – de qualquer forma, não pensando em seu semelhante como num inimigo mortal mas como um animal pelo menos tão digno e nobre quanto um cavalo, mesmo que seja um cavalo selvagem e à primeira vista indomesticável, as ventas para o ar. Tratado humanamente, até o cavalo mais bravio se torna humano – da mesma forma como um tratamento desumano pode acabar tornando o homem, como se diz, um verdadeiro cavalo.”