A vida seria, sem o rio?
Ou o rio é a vida tortuosa que chega ao mar?
Há vida cá e lá
Ambas correm velozes
em alguns instantes uma é só inanição
mas se renova sempre
as vezes com revolta e violência.
A outra, ou as outras, as muitas outras formas
enfraquecem com a ausência da correnteza
se contorcem, amarelam
ou vivem, ou sobrevivem, ou morrem.
A correnteza, à luz inóspita do céu claro
viaja rápido
levando o sumo da vida
mesmo que amargo.
No entanto, há felicidade, fecundação.
Há ausência de traumas
restos de comida
ilusões jogadas aos porcos.
E o espírito fica sempre desejoso de algo mais.
Enquanto isso
onde a água chega
o medo domina
a solidariedade quebrou-se em cacos não remendáveis
não existe horizonte, nem estrelas
O sol brilha sob um manto escuro de fumaça
de escândalos.
Os amores são descontínuos
a comida é egoísta
as pessoas insossas
as luzes amarelas e tristes.
Procura-se a vida.
Só resta uma vaga lembrança
de uma infância distante e feliz.
Há mesas postas
abundantes
regras no sentar
sobremesa
relógios na parede
ausência de sentimentos.
As almas estão secas
sem brilho
e os caminhos sem destinos certos…